A fadiga pode estar na sua cabeça?

Por Yuri Motoyama

Gosto de pensar que o conhecimento que a humanidade acumulou, sempre tentou estabelecer ou entender os limites das coisas. Tudo (inclusive o próprio conhecimento) tem um limite e a ciência avança quando entende e consegue dar um passo além desse limite. Assim, estabelecendo um novo limite a ser estudado.

Com a atividade física não é diferente. Qual é o limite do seu desempenho? Quanto que um ser humano consegue produzir de trabalho físico? Quando você cansa? E a melhor pergunta: Por que você cansa?

Vários autores arriscam suas fichas e tentam explicar os limites do desempenho físico humano e a fadiga.

Um dos pioneiros nesse campo foi o fisiologista Angelo Mosso (1846-1910) que dizia que “a fadiga poderia ser uma imperfeição do nosso corpo, caso contrário seríamos maravilhas perfeitas”.  Anos depois, em 1922 chegamos ao ganhador do prêmio Nobel de fisiologia e medicina Archibald Hill (1886-1977) que através de seus experimentos começou a delinear o pensamento da fadiga que temos hoje. A fadiga como uma falha de algum sistema biológico em gerar energia (ou reconverter substratos para sua forma energética potencial). Ainda vou falar mais sobre essas figuras em outra postagem.

Atualmente, existe um terceiro autor nessa história chamado Timothy Noakes, que nessa última década colocou várias pulgas atrás das orelhas dos pesquisadores e instalou o caos na ordem. Quando todos estavam conformados com seus estudos sobre “acido lático”, frequência cardíaca máxima, depleção de substratos energéticos o Sr. Tim Noakes chega dizendo que tem alguma coisa a mais nessa história. Estávamos esquecendo o cérebro!

Clique aqui para ler um post sobre a diferença entre o ácido lático e o lactato.

Bem resumidamente, o sistema nervoso central (batizado como Governador Central por Noakes) está gerenciando todo esse trabalho produzido pelo corpo. E em um determinado momento o cérebro (o Governador) decide parar. Muitos trabalhos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa do Noakes (e também temos pesquisadores pensando nisso aqui no Brasil) mostram que a fadiga aparece em situações onde o corpo teria condições de se exercitar por tempos maiores. Em alguns casos, o corpo poderia se exercitar sob certas intensidades indeterminadamente!

Um caso bem interessante foi apresentado um tempo atrás no globo esporte. Uma mulher que passou por uma cirurgia cerebral começou a correr incansavelmente, chegando a completar uma prova de 690 km!

Clique aqui para ver a reportagem.

Imagine uma prova de nível olímpico. Dada a largada temos 3 corredores nos 10 metros finais. Os 3 finalistas provavelmente estão dando o máximo de si pois treinaram a vida inteira para aquele momento. O primeiro colocado quer quebrar o recorde mundial além de ganhar o ouro. Aí esse primeiro colocado dá uma olhadinha de canto de olho para trás e vê chegando em uma velocidade enorme o segundo e o terceiro. Sabe o que acontece? Provavelmente ele vai dar um sprint e tirar essa diferença. Aí eu te pergunto?

Se ele estava correndo no “máximo” de onde saiu essa energia do sprint? Porquê ele já não a usou desde o começo?

Se você gostou da matéria, clique aqui e ouça um podcast que aborda uma estratégia ergogênica de neuromodulação.

Quer outro exemplo?

Imagine que você vai correr 5 km de um ponto A ao ponto B. Qual o tempo mínimo que você conseguiria fazer isso? Agora imagine a mesma situação, só que adicionando que no ponto B tem sua filha prestes a morrer por um veneno que só pode ser curado com o antídoto que está na sua mão. Provavelmente você irá reduzir esse tempo que você achava que era máximo.

Bom, vou deixar um artigo aqui para quem se interessou pelo assunto. Logo mais voltaremos para esse tema.


Referência

NOAKES, T. D.; ST CLAIR GIBSON, A.; LAMBERT, E. V. From catastrophe to complexity: A novel model of integrative central neural regulation of effort and fatigue during exercise in humans: Summary and conclusions. Br J Sports Med, v. 39, n. 2, p. 120-4, Feb 2005.