Ácido Lático: culpado, inocente ou inexistente!?

Por Yuri Motoyama

Imagine que você está indo até o seu banco. Chegando na porta você entra junto com 3 indivíduos estranhos, com boné, uma jaqueta de laranja, barba por fazer e cara de malvado. Assim que os dois passam pela entrada do banco o indivíduo tira uma arma e anuncia um assalto. Minutos depois a polícia vem, prende o ladrão e também prende você, como cúmplice.

Injusto isso não?

Pois é meu amigo, essa história tem o mesmo sentido quando afirmamos que o “ácido lático” é o causador da fadiga, da dor muscular tardia, da acidose muscular, da fome no mundo e não me surpreenderia se o “ácido lático” for culpado também pela sacolada que o  Brasil levou na copa do mundo (Brasil X Alemanha).

Antes de continuar eu quero retirar as aspas da palavra “ácido lático”. Na verdade, para uma biomolécula ser considerada um ácido ela precisa respeitar alguns parâmetros, o principal deles é a liberação de íons de hidrogênio no meio onde está diluído (no caso esse meio é o sarcoplasma ou o interior da célula muscular).  Fato que leva a diminuição do pH e aumento da acidose. Outro elemento importante nessa história é chamado de Constante de equilíbrio (Ka leia também sobre constante de dissociação pKa) que indica um valor onde ocorreria um equilíbrio das moléculas ou dos íons em solução.

O grande lance está na fato de que o “ácido lático” existe sim, só que ele precisa estar em um meio (solução) que permita sua existência. Ou seja, sua constante de equilíbrio tem o valor de 3,86 e o pH fisiológico fica em torno de 7,3 a 7,5 tornando muito difícil a existência de tal ácido (muito menos uma produção expressiva) no corpo humano. E também não vamos justificar como nos livros de fisiologia mais antigos que o “ácido lático” vem do “ácido pirúvico” pois o mesmo tem uma constante de equilíbrio 2,5. Estamos falando de uma reação no final da glicólise que transforma o piruvato em lactato.

Está sem tempo para ler, então clique aqui e ouça um programa sobre esse tema enquanto você faz outra coisa…

E sabe por que ocorre essa reação?

Por que o lactato recebe íons de hidrogênio como um mecanismo de tamponamento. É uma das primeiras linhas de defesa do músculo para evitar a acidose e consequentemente um ajuste para baixo das reações enzimáticas. Além do lactato receber esses íons de hidrogênio, ele os transporta para fora da célula (para o sangue) onde lá ele pode ser tamponado por outro mecanismo (ação do bicarbonato).

Percebeu a semelhança dessa história com a que contei no começo? A algumas décadas atrás quando observávamos a fadiga, a acidose e íamos aferir algum marcador bioquímico no sangue (ou no músculo em animais) encontrávamos quem? O lactato! Mas coitado é o laranja da história. Ele estava entrando no banco junto com os ladrões (íons de hidrogênio) e acabou pagando o pato por anos.

Hoje vemos na TV comentadores esportivos, atletas e até educadores físicos vomitando pérolas como: “Olha o desempenho caindo, nessa hora o ácido lático deve estar pegando”, “Agora é o momento de fazer uma atividade recuperativa para remover o ácido lático” ou “Essa dorzinha que está sentindo do treino de anteontem é o ácido lático”. Eu também já vomitei muito dessas pérolas no início da minha atuação como profissional.  Mas agora estou curado, encontrei pubmed (rs)!


Essa seção eu adicionei após uma extensa e interessante discussão sobre o tema. Infelizmente em um processo de mudança no sistema de comentários do site eu perdi os comentários dos professores Marco Machado e Lucas Helal. Porém vou deixar as suas indicações de literatura de apoio aqui. Agradeço muito aos professores por colaborarem com o conteúdo e que isso possa incentivar outros profissionais a participarem das nossas discussões!

Ficou interessado? Leia o artigo publicado pelo Professor Marco Machado (em português) clicando aqui.
Leia mais evidências sobre o tema clicando aqui (indicação do Professor Lucas Helal).


Referências

(olhem as datas dessas publicações para verem que não é nenhuma novidade)

Gladden, L. Bruce. “200th anniversary of lactate research in muscle.”Exercise and sport sciences reviews 36.3 (2008): 109-115.

Cairns, Simeon P. “Lactic acid and exercise performance.” Sports Medicine36.4 (2006): 279-291.

Macedo, Denise Vaz, et al. “Is lactate production related to muscular fatigue? A pedagogical proposition using empirical facts.” Advances in physiology education 33.4 (2009): 302-307.

  • Yuri Motoyama

    ok

  • diego garcia de matos

    Parabéns professor Yuri.

    • Yuri Motoyama

      Agradecido Diego! Também recomendo a página Fisiologia do Exercício Simplificada do professor Lucas. Ele inclusive havia colocado umas referências aqui e eu as perdi quando atualizei o sistema de comentários do site. Abraço!