Bioenergética: O que são os famosos limiares? Parte 1/2

Muitas vezes lemos textos, artigos e livros de bioenergética que abordam os limiares e dependendo da ocasião os autores utilizam nomenclaturas diferentes. Até já vi pessoas se estranhando por defenderem tais  nomenclaturas (tipo torcedores de futebol, rs). Se o limiar fosse uma personalidade com certeza ele sofreria com as suas personalidades múltiplas. Porém, se olharmos com um pouquinho mais de carinho e cuidado vemos que não é tão confuso assim. Vamos conversar um pouquinho sobre esses limiares.

Na Bioenergética, o que são esses limiares?

Gosto de pensar nos limiares de maneira parecida a uma mudança de marcha em um carro. O motor está convertendo energia química (gasolina) em trabalho da mesma forma que o corpo está transformando energia química armazenada nas ligações do fosfato da molécula de ATP-Mg2+ em movimento. Isso é o princípio da Bioenergética. Agora imagine que esses processos estão ocorrendo a todo tempo como um carro em ponto morto. Só que uma das diferenças principais do nosso motor para o motor do carro é que nós funcionamos com motores híbridos. Utilizamos outras fontes (substratos) para produção indireta de energia. No nosso casso utilizamos a energia armazenada nas estruturas das biomoléculas (fosfatos de creatina, carboidratos, proteínas e lipídeos) para reconverter o ADP para sua forma mais energética ATP e daí continuar a produzir movimento.

Se no meio desse papo de bioenergética você pensou em lactato, clique aqui e leia essa post!

Tendo esse cenário na cabeça (e uma imaginação bem fértil, rs) podemos imaginar que os limiares são quando nosso motor vai trocando de marcha. Dependendo da intensidade do exercício existem pontos de transição metabólica e esses pontos definem quais substratos estão sendo utilizados prioritariamente  para reconversão de ATP e produção de trabalho.

Então nosso motor (ou os micromotores instalados em nossas células) tem basicamente 2 marchas. Se formos levar em consideração a intensidade do esforço e sua relação com a produção de energia, estamos agora (no momento que está lendo esse texto) em ponto morto.  Levante agora e comece a fazer polichinelos de forma bem suave, você vai precisar engatar a primeira marcha para utilizar uma mistura nova de substratos energéticos para realizar esse esforço mais intenso. Agora comece a fazer polichinelos de maneira frenética! Gritando e pulando como se todas as baratas (aranhas ou o inseto que você mais tenha medo, rs) estivessem pousando em você! Agora você vai ter que engatar a segunda marcha onde vai existir outro ponto de transição metabólica para continuar a produção de energia e você conseguir realizar os segundos finais dessa atividade física intensa.

Alguns pontos importantes para se ter em mente ao estudar bioenergética e exercício.

  1. Nosso motor hibrido sempre vai funcionar de maneira mista. Ele fará a mistura de combustível (as biomoléculas) que for necessária para que haja movimento utilizando as fontes de energia mais “sustentáveis”, ou seja as que temos mais reservas e não se esgotam com facilidade.
  2. Gosto de imaginar que todo o processo que chamamos de bioenergética serve para manter a ordem estrutural e funcional dos organismos. São motores que estão trabalhando para manter a homeostase do corpo. Ou como eu gosto de pensar de forma a reverter à entropia. Acredito que essa seria a preocupação principal dos sistemas metabólicos, a manutenção da vida. O que acontece durante o exercício é que, utilizamos esses motores emprestados para realizar mais trabalho.
  3. Então o limite do desempenho humano está relacionado com essas biomoléculas? Não! Ainda existem muitas dúvidas a respeito dos mecanismos que explicam a fadiga ou quando nossos micromotores não conseguem mais produzir energia para o trabalho. Um carro não anda quando o combustível chega a 0%, no nosso corpo parece que as coisas são bem diferentes. Estoques de ATP e Glicogênio muscular ficam em torno de 50 a 60% quando entramos em fadiga. Mas isso é matéria para outro post.

Fique ligado no próximo post que iremos conversar um pouco sobre a os limiares e o porquê deles terem tantos nomes!

Gostaria muito que os professores interessados deixassem suas opiniões e engrossassem o caldo dessa discussão aqui nos comentários. É muito mais legal quando construímos pontos de vista juntos!


Ps.: Hoje tenho uma referência em português. Algumas pessoas reclamam e torcem o nariz por conta das referências serem na maior parte em inglês. Um dos meus objetivos comentando artigos aqui no site é tentar trazer as informações do inglês para o português para quem tem dificuldade com a língua, porém  hoje trouxe um excelente artigo de revisão sobre bioenergética e limiares em português. Então não tem desculpa hoje, vamos baixar e estudar!



Referencia

AZEVEDO, Paulo Henrique Silva Marques et al. Limiar Anaeróbio e Bioenergética: uma abordagem didática-DOI: 10.4025/reveducfis. v20i3. 4743. Revista da Educação Física/UEM, v. 20, n. 3, p. 453-464, 2009.