Blogueiros fitness: como erradicar essa doença

Por Yuri Motoyama

Provavelmente você já gastou alguns minutos da sua vida para ver um vídeo ou uma postagem de um blogueiro (a) famoso dando dicas de treino, alimentação, etc. Para nós que trabalhamos com saúde é um caminhão de besteira. Para pessoas que são leigas no assunto, essas “dicas” podem parecer boas e tentadoras. E isso tudo leva a uma doença muito perigosa, recente e ainda sem tratamento.

Em primeiro lugar quero deixar bem claro que o problema não é o fato deles serem blogueiros. Existem vários blogs que prestam um excelente serviço de promoção de informações relevantes para saúde. A própria revista científica Nature viu a importância de se divulgar a ciência de uma forma mais popular e criou um blog. O problema nessa história é que esses blogueiros treinaram, suplementaram e principalmente anabolizaram seus corpos para chamar sua atenção. Aí você está de bobeira na internet, passando tempo rolando sua timeline do facebook e  instagram (essa doença é transmitida principalmente através dessas duas redes sociais) e acaba sendo contaminado por um blogueiro fitness…

Blogueiro fitness, entendendo a doença

Essa doença se manifesta quando uma pessoa não tem acesso a informações sobre saúde. Na verdade, as pessoas contaminadas, desde sua educação básica foram doutrinadas a acreditar em tudo e nunca questionar nada. São influenciadas pela aparência.

Outro aspecto que facilita a contaminação é ter preguiça. As pessoas que esperam ter resultados monstruosos com pouco ou nenhum esforço são as que tem o maior perfil para serem contaminadas. A partir daí fica fácil a contaminação, basta uma rápida olhada em um corpo bonito em um vídeo ou uma chamada do tipo “queima de gordura por 365 dias” que a doença já está transmitida.

Sintomas da doença

Você percebe uma pessoa doente quando o Facebook dela já tem centenas de compartilhamentos de exercícios ridículos (isso na melhor das hipóteses). Quando o Instagram dela parece uma revisa de moda de academia com tantas modelos desfilando com suas roupas perfeitamente combinadas e abdomens de fora.

Em um estágio mais avançado da doença essa pessoa já começa a compartilhar com seus amigos as dicas de treino e alimentação. Ela já começa a escrever recadinho nos copos de suplementos para outras pessoas. Nesse estágio a pessoa já ignora a instrução de profissionais competentes para introduzir um exercício ou outro no seu treino. É aqui que começa a transmissão da doença. Nesse ponto, a pessoa já começa a se destacar na academia. Não pelos seus resultados e sim pelas roupas da moda e pelos exercícios que parecem que foram orientados para serem executados da maneira “perfeitamente” errada.

E aí chegamos no estágio mais avançado da doença. Nesse estágio a pessoa já monta seu próprio treino e alimentação com base nos blogueiros fitness. Ela já prescreve esses exercícios “perfeitamente errados” para outras pessoas (criando um subgrupo de seguidores). Ela já compartilha as baboseiras freneticamente e faz comentários do tipo “fantástico!”, “Isso mudou a minha vida!”…

Estágio terminal da doença

Nas fases terminais, a pessoa gastou anos de sua vida e conseguiu no mínimo uma dor nas costas (sendo otimista). Essas pessoas desistem e falam que academia não é pra elas. Um outro aspecto terminal dessa doença é quando a pessoa contaminada utiliza hormônios e alcança um corpo “perfeito”. Aí os blogueiros se tornam deuses e ela nunca vai saber que ela poderia ter tomado hormônio e feito faxina em casa que teria os mesmos resultados.

A doença dos blogueiros fitness tem cura?

Existe uma cura sim! O remédio para essa doença se chama ciência e divulgação. Sempre digo que a maior parte da culpa dessa doença ter se disseminado no Brasil é dos próprios profissionais de saúde. Hoje em dia temos profissionais mal qualificados sim, são pessoas que não entendem a importância da profissão e estão lá só para tirar um trocado. Falando especificamente da minha área, temos professores com uma década de carreira que nunca leram UM CAPÍTULO de um livro de fisiologia sequer. Temos professores que nunca fizeram cursos para se atualizar. Temos professores que nunca leram um artigo científico ou procuraram nas bases de dados a resposta para uma dúvida.

Além dos profissionais mal qualificados temos os profissionais omissos. Que vêem essas postagens e não fazem nada. Quantas postagens no facebook você denunciou? Quantos videos você não deixou de comentar com alguma critica sobre o que estava sendo falado? Quantas vezes você tentou compartilhar uma informação correta em cima de uma besteira publicada na internet? Quantas vezes você reservou alguns minutos para ajudar a divulgar informações corretas pelas redes sociais?

Se você está se perguntando “onde então eu posso pegar informações sobre saúde com segurança?”. Clique aqui e ouça esse podcast!

Os blogueiros fitness não tem o conhecimento, mas uma coisa é certa, eles sabem usar a internet para conseguir seguidores. E os profissionais que tem o conhecimento para compartilhar e mudar essa situação ficam escondidos atrás de suas mesas de trabalho. Desse jeito, quem você acha que vai ganhar essa disputa?

Critique, comente, compartilhe informações com embasamento cientifico e principalmente aprendam a usar o botão DENUNCIAR!

 Clique aqui e aprenda como denunciar um conteúdo no Facebook!

 


  • Fabio Rocha de Lima

    Fala mestre!

    Sempre vou insistir que a cura para essa doença que ainda assola grande parte da sociedade, é a busca por informações de qualidade, e outra coisa que nunca devemos largar: “as perguntas”. Uma pena que já vi futuros e já colegas de profissão recomendando as dicas desses pseudo-cientistas/blogueiros (acho melhor que somente blogueiros…rsrs…). Infelizmente, maioria dos casos, as pessoas só percebem tarde de mais o risco de seguir esses charlatões.

    Com a proporção de divulgação científica que vejo atualmente, acredito que essa doença vai ser diminuída, e ganharemos o 1° round dessa luta…rsrs… Fico muito feliz em ver diversos profissionais divulgando os conteúdos que muitos julgam “complexos e Inalcançáveis”, de uma forma fácil de ser compreendida. Precisamos passar para a sociedade o que é fazer ciência, e o que é enrolar.

    Vamos nos preparar para continuar o combate…rsrs…

    Grande abraço

    • Yuri Motoyama

      Valeu pelo comentário Fabio! Estamos na luta!! Abração

  • misterjeny

    olá a todos,conheci o espaço de vocês a pouco igo que estão de parabéns.sou um viciado em podcasts e também em todas potencialidades físicas(artes marciais,musculação…)e queria ser,aqui meio que advogado do'”mochila de criança”‘; não gosto,e nunca gostei!de generalização de nada(ou ninguém).
    e,no caso dos famigerados “blogs fitness”,acredito que no meio de muitos deles há pessoas estudadas e/ou capacitadas no assunto. em um de seus podcasts alguém falou de quando criaram lei obrigando artistas marciais a possuírem diploma de Ed.F. para lecionarem. oque de um angulo(segurança,conhecimento biomecânico…)é ótimo mas,do angulo cultural e prático na especifica luta não trouxe quase nada de mudança(metodologias seculares não se mudam em passes de magica ou leis).
    oque isso tem a ver?resposta:muitos desses blogueiros são entusiastas ou apenas entusiasmados com oque vieram a aprender sobre seus corpos e sentem-se compelidos a “passar adiante” oque aprenderam,certo ou errado,eu acho que é isso que nos faz evoluir.aprender com erros e acertos de outros.

    Muito obrigado pelo espaço de tão valioso conhecimento,abraços .tempo e,desde já,d

    • Yuri Motoyama

      Muito bem colocado Mr.Jeny! Também acredito no potencial de vários blogueiros que passam informações sobre saúde (eu sou um blogueiro e passo informações sobre saúde). O que eu vejo de errado no caso desses entusiastas é que em várias ocasiões eles dizem ser superiores aos profissionais da área da saúde. Alegando que suas experiências são mais válidas do que décadas de estudos e pesquisas. Dessa forma “ditando” (o termo melhor seria cagando) regras que podem em muitos casos prejudicar a saúde das pessoas. Acho que todo mundo tem a liberdade para fazer e falar o que quiser, até o momento onde o amadorismo tenta competir com o profissionalismo ou quando a saúde de pessoas podem estar em risco. Com relação a esse contraste entre artes marciais e educação física eu posso dar minha opinião (a propósito estamos montando uma pauta para um cast sobre artes marciais) pois sou “formado” em ambos conhecimentos. Um faixa preta de Karatê não saberia o que fazer se recebesse em sua academia um aluno com uma protusão discal lombar, da mesma forma que um recém formado não poderia ensinar karatê com o conteúdo que teve na faculdade. Acho que Artes Marciais e Educação Física só tem a ganhar se andarem juntas. Abraço chefe e agradecido pelo comentário!!

  • Ótimo texto, professor. Principalmente quando se refere ao nosso papel como profissionais de Educação Física neste contexto. O que acontece, ao meu ver, é que muitos de nós (principalmente aqueles menos ligados à produção científica hands-on e ao mundo acadêmico de forma geral) acabamos sendo disseminadores dessa cultura pseudocientífica. Professores e professoras que exacerbam a estética, fazendo o uso de substâncias perigosas e proibidas e que, além de tudo, enganam muito no que diz respeito à qualidade metodológica da própria prescrição de exercício destes mesmos. Profissionais registrados, agindo deliberadamente (ou nem tanto) de má-fé ao venderem a ideia que são excelentes profissionais simplesmente pelo fato que são “gigantes”. Vendem a ideia de saúde, quando na verdade são os mais distantes dela, alimentando dismorfismos, esteriótipos, acnes e cânceres. Pra mim, este boom dos blogs fitness é somente um reflexo disso… Ainda bem que tem gente que tenta remar pro lado contrário, mas a maré é forte! Abraços

    • Yuri Motoyama

      Concordo contigo amigo! Acho que o lance é nós termos força para ir remando contra essa maré. Não sei se grandes profissionais terão espaço nessa mídia de bombados e gostosonas algum dia, porém não podemos parar de tentar divulgar conteúdos embasados para a população. Acho que o grande lance ainda é educação… Valeu pelo comentário! Abraço