Câncer de mama e atividade física

Por Yuri Motoyama

Já escrevi há um tempo atrás uma postagem sobre a relação entre o câncer e atividade física. Como estamos durante a campanha do outubro rosa vou postar aqui alguns dados referentes a relação entre o câncer de mama e a atividade física.

Um ponto importante que gostaria de tocar aqui antes de entrar no texto é que – pacientes com câncer não são de vidro! Isso não significa que você vai ignorar a doença e lascar intensidade no treino e sim que o treino precisa ser prescrito, monitorado e avaliado corretamente. Estou falando isso pois já vi professores trabalhando com esse tipo de população, e com medo de errar acabam subestimando o treinamento. Isso pode fazer com que a pessoa não tenha todos os efeitos positivos do treinamento, assim não se beneficiando do treinamento físico.

Existem relações diretas e bem definidas entre o câncer de mama e atividade física?

Como qualquer outro tipo de câncer, as formas de identificar sua possível origem ainda são bem complexas. Grandes estudos identificam pontos frequentes no aparecimento do câncer de mama como fatores não-modificáveis como idade e predisposição genética, quanto fatores modificáveis como consumo de álcool, obesidade e sedentarismo.

Nesse artigo que estamos revendo, a definição de atividade física se resume em qualquer tipo de atividade que aumente o gasto energético comparado com o metabolismo basal. Dos dados revistos pelo artigo referenciado, 40% dos estudos observacionais encontraram reduções no risco de morte através do câncer de mama quando as mulheres tinham algum nível de atividade física.

Clique aqui para ler outro post sobre os benefícios da atividade física sobre o câncer.

Fatos importantes relacionados ao câncer de mama e atividade física

Em uma revisão com meta-análise publicada no periódico Acta Oncológica podemos ver alguns dados gerais sobre a relação entre a doença e a atividade física:

  • A atividade física é altamente recomendada como complemento para o tratamento do câncer. Entretanto, quando a atividade física é realizada (ou iniciada) após o diagnóstico do câncer de mama, os casos de morte são reduzidos em 41% e a recorrência de desenvolver o câncer de mama novamente é reduzida em 24%;
  • Existe uma forte relação entre a presença do sedentarismo, a obesidade e um risco aumentado de morte devido ao câncer de mama;
  • Pacientes que estão sob tratamento de quimioterapia e radioterapia podem realizar atividades físicas com segurança;
  • A auto-estima (avaliada por questionário) é muito maior em pacientes que estão participando de treinamentos de força (musculação) ou treinamentos aeróbios comparados com pacientes sedentários. Sabemos que o câncer de mama tem um aspecto estético muito importante a ser considerado que é a possibilidade de retirada da mama. Isso aliado a queda de cabelo e alterações corporais pode levar a um quadro depressivo;
  • Tanto o treinamento aeróbio quanto o treinamento de força vão aumentar a aderência à fase da quimioterapia. Completar o tratamento quimioterápico é muito importante, porém devido ao mal estar provocado pelo tratamento, muitos pacientes acabam desistindo das sessões de quimioterapia. O exercício físico pode ajudar a atenuar essas sensações desagradáveis por ajudar a manter um nível maior de força muscular e resistência.

Podemos ver nesses dados alguns pontos bem interessantes que são de total responsabilidade para nós educadores físicos. Acredito que o mais importante é que o aumento no nível de atividade física tem uma relação positiva na taxa de sobrevivência. E qual é o profissional mais indicado para aumentar o nível de atividade / exercício físico de uma pessoa? Essa é fácil…

Ainda vemos que existem poucos trabalhos que abordam atividades com altas intensidades e treinamento de força. Acredito que uma boa parte disso é devido a falta de conhecimento que existia antigamente sobre essa doença. Atualmente sabemos que esse tipo de paciente consegue suportar intensidades moderadas (e em alguns artigos altas intensidades) e ter todos efeitos positivos do treinamento.

Como eu já coloquei em outras postagens, não precisamos ter medo para treinar populações especiais. Como diz um amigo meu: “o medo é falta de conhecimento”.


Refêrencias

LAHART, Ian Matthew et al. Physical activity, risk of death and recurrence in breast cancer survivors: A systematic review and meta-analysis of epidemiological studies. Acta Oncologica, v. 54, n. 5, p. 635-654, 2015.

CARAYOL, M. et al. Psychological effect of exercise in women with breast cancer receiving adjuvant therapy: what is the optimal dose needed?. Annals of oncology, v. 24, n. 2, p. 291-300, 2013.