Ciência e Religião

cienciaxreligiãoO psicólogo diante das crenças religiosas no contexto hospitalar: uma compreensão da subjetividade do outro

Por Érika Perina Motoyama

(Sra. Reforço Positivo)

Desde as sociedades mais antigas, o ser humano traz em sua constituição cultural o fenômeno religioso. No politeísmo ou no monoteísmo, a humanidade sempre procurou explicações sobre suas dúvidas existenciais em seres divinos, atribuídos de poderes e vontades que independem dos desejos humanos.

Assim, a presença de um sentimento de impotência e vulnerabilidade acaba sendo intrínseco à condição humana, concernindo a essência dos conceitos de religião de uma forma geral.

Kovács (2007) define as religiões como “sistemas de crenças, com tradições acumuladas envolvendo símbolos, rituais, cerimônias e trazem explicações sobre a vida e a morte” (p. 246).

A Psicologia enquanto uma ciência que tem como objeto de estudo principal o ser humano, deve compreender a influência da religião na constituição do indivíduo, de grupos sociais e a interação de ambos.

É importante que o psicólogo atente para um conhecimento sobre as diversas religiões existentes, pois dessa forma aproxima-se mais do sujeito, e consequentemente, dos paradigmas que norteiam suas ações.

Porém, a aproximação a tais paradigmas pode suscitar no psicólogo, indivíduo também portador de subjetividade e crenças pessoais, preconceitos diante do diferente, o que exige um cuidado e uma separação de conteúdos pessoais por parte do profissional.

De acordo com Dalgalarrondo (2008), foi durante o último século, nos Estados Unidos, que desenvolveram-se pesquisas sobre as implicações psicológicas da religiosidade.

O mesmo autor traz também que determinados tipos de personalidade tem maior inclinação a alguns tipos de religião do que outros.

Cambuy, Amatuzzi e Antunes (2006) em seu artigo discutem dois vieses da influência que a religião exerce no sujeito. Um relacionado à religião como promovedora de benefícios, como mudanças positivas em seu modo de ser e, outro relacionando com algo não sadio (aspectos psicopatológicos) e não construtivo.

Apesar de muitas vezes parecerem divergentes e, porque não, até rivais, ciência e religião apresentam como objetivo comum a busca de sentido dos acontecimentos cotidianos (PAIVA, 2002).

O psicólogo hospitalar e a religiosidade dos pacientes

O hospital é um lugar que mobiliza muitos sentimentos nas pessoas. A ausência de saúde traz a tona à possibilidade de morte, relembrando a terminalidade que é intrínseca ao ser humano. Diante disso, os pacientes procuram sustentações advindas do meio familiar e religioso.

Muitas vezes, é através da religião que o paciente consegue se expressar e se comunicar com o psicólogo. Sobre isso, Kovács diz que: “Não se pode ignorar a questão religiosa, é preciso ter abertura para compreender as metáforas e símbolos apresentados pelos clientes” (p. 253).

Com isso, percebe-se o quanto é importante preservar ao menos este aspecto da individualidade do paciente, tão dissolvida no contexto hospitalar, já que muitas vezes, é através deste que o paciente sente-se seguro para falar de si e de sua visão de mundo.

Dentro do hospital, o psicólogo terá que manejar várias questões ligadas à religião, sendo uma delas, o preconceito da equipe diante de alguns posicionamentos religiosos.

Facilitar esta comunicação é de suma importância para que o paciente sinta-se acolhido e respeitado, fortalecendo assim uma relação de confiança entre equipe e paciente, promovendo uma vivência menos inóspita da hospitalização.

Há muito que se discutir no que diz respeito à religião, cuidados de saúde e relacionamento entre equipe e paciente. Mas o que deve ser destacado como algo de extrema importância é a possibilidade de comunicação entre esses sujeitos, apesar das diferenças entre as linguagens e pontos de vista.

E o psicólogo, se preparado e consciente de suas próprias crenças, pode e deve ser um facilitador nesta interação que será fundamental durante o período de internação para paciente/família e equipe de saúde.

Bibliografia:

CAMBUY, K.; AMATUZZI, M. M.; ANTUNES, T. A. Psicologia Clínica e Experiência Religiosa. Revista de Estudos da Religião. Nº 3 (p. 77-93). São Paulo: 2006.

DALGALARRONDO, P. Religião, Psicopatologia & Saúde Mental. Porto Alegre: Artmed, 2008.

KOVÁCS, M. J. Espiritualidade e psicologia – cuidados compartilhados. O Mundo da Saúde. Nº 31(2) – abril/junho (p. 246-255) São Paulo: 2007.

PAIVA, G. J. Ciência, Religião, Psicologia: Conhecimento e Comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica. Nº 15(3) (p. 561-567). São Paulo: 2002.

  • Yuri Motoyama

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