Ciência: por que deveríamos nos acostumar a estudar mais artigos e menos livros?

Por Yuri Motoyama

Fiz uma chamada um pouco mais polêmica para trazer você para alguns parágrafos de reflexão. Você que é graduando, pós graduando ou autodidata, acredito que tenha o costume de estudar diariamente. Você consome informações específicas (técnicas) de qual fonte? Livros, artigos, internet?

Estava conversando com um amigo meu essa manhã e ele me lembrou de uma época na qual eu vivi pouco tempo. Época onde se você quisesse ter acesso a literatura científica você precisava sair de casa, ir até uma acervo (isso quando esse acervo não ficava em outra cidade), utilizar os catálogos (na minha época já existia um terminal para fazer isso eletronicamente), encontrar os artigos, xerocá-los e trazer para casa uma mala cheia de papéis. Agora me responda uma pergunta, quem fazia isso antigamente?

Com certeza se davam esse trabalho apenas os pesquisadores, docentes e autores de livros. O acesso a informação científica atualizada era restrito e nada estimulado. Na minha época de faculdade por exemplo, eu não relei a mão em um artigo científico sequer. Além do acesso ser muito complicado, não eram todos os meus professores que recorriam a esse tipo de literatura (artigos).

Se você gosta de ciência e ainda não ouviu nossa entrevista com o professor Gilson Volpato, pare tudo agora e clique aqui.

Qual o maior contraste entre os livros texto e artigos?

Vou chamar aqui livro texto aqueles livros “gigantescos” que são compilados de artigos e normalmente fazem parte da literatura básica de vários cursos. Por exemplo, na minha área existem os famosos e temidos livros de fisiologia (Guyton, Powers, McArdle, Silverthorn) que vivem andando para cima e para baixo nas axilas dos mais dedicados. Mas a questão onde quero chegar é:

Se hoje temos acessibilidade total, através da internet, a artigos científicos recentes, por que ainda recorremos a esses livros como estratégia básica de estudos?

Não estou falando que esses livros são inúteis, muito menos que são ruins! Eu mesmo tenho meus livros de cabeceira que são extremamente didáticos e prazerosos. Mas uma coisa que muitos não se atentam é que os livros são conteúdos que se desatualizam muito rápido!

Imagine um livro texto atual, vamos pensar em uma edição de 2015. Provavelmente os autores demoraram uns 2 anos (isso contanto um processo editorial rápido) para passar esse livro na mão de revisores, ilustradores, diagramadores, etc. Nesse processo é muito provável que a revisão bibliográfica desse livro não se altere, isso significa que o livro de 2015 foi revisado pela ultima vez em 2013. Agora imagine que aquele livro texto não surgiu da noite para o dia, os autores fizeram uma extensa revisão da literatura científica atualizada para montá-lo. Vamos contar que o livro (a revisão de literatura) demorou uns 3 anos para ficar pronta. Então esse livro foi idealizado e passado para o papel em um período de 2010 a 2013. Agora vamos imaginar outro cenário (bem positivista) onde durante essa revisão esses autores decidiram usar artigos que estejam dentro de um período de 5 anos para essa revisão. Então temos aí um livro que tem artigos que podem ter  sido publicados em um período de 2005 a 2013. Agora votamos para o presente, você aí com a edição de 2015 na sua mão, pode ter informações que eram recentes na época da revisão, porém hoje, essas informações podem ter uma década de novos artigos pela frente. Será que alguma coisa não pode ter mudado?

A velocidade da ciência e a importância de estar atualizado na área da saúde.

A ciência anda a passos extremamente rápidos e se você ficar alguns meses sem dar uma olhadinha na literatura muitos conceitos novos, pontos de vista, atualizações podem passar desapercebidas e seu trabalho (a aplicação do conteúdo científico) pode estar desatualizado! Eu sei que estou exagerando, mas você que é da Educação Física já deve estar cansado de ouvir que o “ácido lático” é o causador da fadiga e da dor muscular. E o pior é que essa informação pode estar em livros que compõem a literatura básica de cursos de graduação!

Atualização é muito importante e a atualização a partir de artigos científicos é mais ainda! Acredito que precisamos rever os conceitos de “acesso a informação” nas instituições de ensino. Passamos por uma fase muito rápida de transição tecnológica e isso afetou a forma como acessamos informações. Não precisamos nos prender somente em livros texto, podemos estimular nossos alunos a ler artigos e principalmente a realizarem pesquisas nas bases de dados e chegar em suas próprias conclusões.

Hoje temos professores que pertencem a uma geração onde se estudava exclusivamente em livros e aquela era a fonte de informação recente. O que acontece é que a tecnologia avançou e muitos não acompanharam essa evolução do acesso a informação. Alguns professores mais tradicionalistas (sim isso é uma crítica) vão utilizar com seus alunos as mesmas abordagens pedagógicas que foram utilizadas com eles, ou seja, os livros são tudo para a formação. Artigos? Ahhh isso é só para pesquisadores…

Hoje em dia existem crianças que acessam a internet todos os dias e não sabem que existem nada além do facebook. E não estou brincando, a internet atualmente é apenas um meio para se conectar a sua rede social favorita. Imagino como isso deve doer nos corações dos primeiros pesquisadores que “inventaram” a internet como meio de facilitar a troca de artigos entre universidades…

Você que gosta de estudar e ficou incomodado com o texto, convido-o a brincar um pouco com as bases de dados. Tente encontrar respostas para suas perguntas em artigos. Acredito que com um pouco de esforço você vai se sentir muito mais intelectualmente independente, satisfeito e seguro para atuar.

Se você quer ter experiências diferentes na internet além de redes sociais, clique aqui e veja algumas sugestões nesse post.
Se você quer ouvir um podcast com um exemplo de estratégia para encontrar informações atualizadas sobre saúde em bases de dados científicas, clique aqui!


  • Bruna

    Por incrível que pareça, na minha faculdade os professores estão constantemente estimulando e cobrando a leitura de artigos(utilizam artigos para apresentação de trabalhos etc) e isso faz parte da composição da nota..então torna-se uma obrigação.. fiquei feliz em constatar essa informação com o 4×15..

    • Yuri Motoyama

      Bato palmas para sua instituição Bruna! Isso é fantástico e vai ser fundamental no sucesso profissional dessa turma que irá se formar. Comparado com a minha época de graduação, eu percebi que muitas coisas mudaram para melhor. Mas ainda temos muito tradicionalismo dentro das instituições. Abraço e agradecido pelo comentário!

  • wender

    Parabéns pelo post mestre. Desde que conheci o 4×15 e ouvi o podcast sobre a área acadêmica e onde buscar informações, fiquei interessando no campo de pesquisa cientifica, espero ansiosamente terminar a graduação e trilhar esse caminho (rs).

    • Yuri Motoyama

      Wender, ao mesmo tempo que eu fico muito feliz no conteúdo do site contribuir com a sua formação eu te digo “bem vindo ao mundo de malboro!”. Eu adoro a área academica, porém é um campo onde você tem que gostar muito porque o negócio é bravo! rs Abração e agradecido pelo comentário

  • luiz

    Tenho um colega da pós que fala muito sobre a importância de ler os artigos devido isso que você abordou. Eu concordo muito com ele e com o que você disse. A universidade qual estudo é pública e tem um corpo docente bem capacitado no qual fala e incentiva muito os alunos a lerem artigos. No entanto a Educação Física é um curso que tem poucos estudantes leitores e começar dos livros é fundamental para construir uma base crítica a respeito do que irá ler futuramente. Até porque foi como você cita ai no texto, os autores do livro pegam vários estudos e compilam todos em um livro, sendo assim há muito conhecimento nessa fonte secundária.