Correr descalço é melhor que usar calçado? Parte 1/2

Retirado do artigo Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners.
Sapato de couro de 800 a 400 a.C. no Museu Hallstatt, na Áustria. Fonte: Wikipédia. Créditos da foto: Opodelok

Por Yuri Motoyama

(Prof. Suspiro Reto)

A corrida descalça se tornou bem popular nos últimos anos. Podemos ver isso pela quantidade de calçados que tentam aproximar nossos pés do solo (minimalistas). Hoje em dia existem muitas pesquisas abordando vários aspectos da corrida descalça. Uma coisa é fato, a humanidade “anda sobre os pés” e corre à 4,4 milhões de anos. Os primeiros calçados (moccasins) datam de 50.000 anos atrás. Nesses milhares de anos muito da nossa biomecânica durante a corrida foi se adaptando. Nos anos 70, a popularização da corrida como forma de prevenção de doenças levou a uma era de modernização nos calçados de corrida.

A corrida descalça se torna um tema bem complexo quando observada através dos seguintes detalhes: 1) Avaliar as lesões na corrida (calçada x descalça) é complicado considerando que são vários aspectos (e não um único) os fatores causadores; 2) A mecânica da corrida muda muito de indivíduo para indivíduo; 3) Existe uma grande variedade de estudos que se propõem a analisar a corrida só que com diferentes delineamentos (na rua, em esteira ergométrica, calçado, descalço, etc) e 4) Os dados adquiridos nesses estudos muitas vezes não oferecem respostas suficientes podendo levar a conclusões equivocadas. Dentro dessas questões podemos destacar alguns pontos interessantes.

Clique aqui e veja um artigo sobre as diferenças de se pisar com o calcanhar ou com o pé chapado.
Biomecânica da corrida

A justificativa central da corrida descalça é que as alterações da pisada (ataque dos pés ao solo) ajudam a prevenir lesões recorrentes em corredores que atacam o solo com os calcanhares (quando estamos calçados). O pesquisador Liberman (2010) publicou um estudo na revista Nature mostrando os benefícios da corrida descalça como forma de prevenir lesões tibiais (famosa dor na canela) causadas por stress mecânico. Existem outros tipos de lesões associados a corrida como fraturas da tíbia e ossos do pé, dor patelo-femoral, lesões musculares e tendinopatia de aquiles.

Forma da pisada

Sabemos que ao correr descalços, adaptações motoras instantâneas fazem com que ataquemos o solo com a parte anterior da sola do pé (antepé), assumindo que exista uma distribuição maior desse impacto nessa região quando comparada com o calcanhar. Além de existir a proteção dos tecidos que compõem a fáscia plantar (o arco do pé) otimizando a distribuição das forças excêntricas através das articulações envolvidas.

Veja o vídeo que mostra as diferentes formas de pisada.

Outro fator envolvido é a velocidade da corrida, Hatala (2013) apresentou que 72% dos corredores descalços acabam atacando o solo com os calcanhares quando correm em velocidades confortáveis. Porém mais da metade (60%) acaba trocando para a pisada com a parte anterior do pé quando a velocidade é aumentada.

Mas não vamos sair mudando nossa forma de correr da noite para o dia, quando corredores que estão acostumados a correr calçados são submetidos a testes descalços eles apresentam maiores forças de impacto do que quando utilizando calçados.

No esporte temos famosos corredores descalços como a etíope Abebe Bikila, o etíope que ganhou a maratona dos Jogos Olímpicos de Roma em 1960, a sul-africana Zola Budd nos 3.000 metros das Olimpíadas de Los Angeles em 1984 e Jorilda Sabino  que faturou um lugar no pódio da São Silvestre de 1983 a 1985.

Essa é uma discussão que ainda vai render muitas postagens. Por enquanto o melhor é estar acompanhado de profissionais antenados e que possam te ajudar a realizar alterações na sua forma de correr se for necessário.

Só que nossa conversa ainda não acabou, sexta feira tem mais! Fique de olho e assine nosso site para não ser o último a saber das coisas…

Clique aqui e leia a parte 2 dessa postagem!



Referências

Tam, Nicholas, et al. “Barefoot running: an evaluation of current hypothesis, future research and clinical applications.” British journal of sports medicine(2013): bjsports-2013.

Lieberman DE, Venkadesan M, Werbel WA, et al. Foot strike patterns and collision  forces in habitually barefoot versus shod runners. Nature 2010;463:531–5.

Hatala KG, Dingwall HL, Wunderlich RE, et al. Variation in foot strike patterns during running among habitually barefoot populations. PLoS ONE 2013;8:

  • Yuri Motoyama

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