Correr descalço é melhor que usar calçado? Parte 2/2

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Por Yuri Motoyama

(Prof. Suspiro Reto)

Continuando nosso assunto sobre o polêmico tema. Se você não leu o post anterior clique aqui para ficar por dentro.

Lesões nos membros inferiores e nos pés

A literatura também apresenta evidências que mostram lesões nos pés e calcanhares em corredores que experimentaram a corrida descalça. Uma pesquisa conduzida por Salzer acompanhou 10 corredores que estavam em período de adaptação para correr descalços e mostrou lesões por stress no pé e calcanhar. Em alguns casos não é tão natural a pisada com a parte anterior do pé somente pelo fato de não estar usando calçado.

Lesões no tornozelo e nos pés

A habilidade do sistema neuromuscular em coordenar a corrida descalça ainda não foi totalmente estudada. Algumas evidências mostram uma atividade maior da musculatura do Gastrocnêmio quando a corrida é descalça ou calçada quando o ataque ao solo é feito com a parte anterior da sola dos pés. Isso pode levar a um aumento no risco de Tendinopatias de Aquiles. Em contrapartida, o fortalecimento da musculatura gastrocnêmia (panturrilhas) pode prevenir esse tipo de lesão e contribuir para o controle do impacto nas articulações do joelho e tornozelo.

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Joelhos

Utilizando a técnica da corrida descalça, porém utilizando calçados, há uma redução da força excêntrica nos joelhos. Essa técnica é sugerida por Thijs (2008) como uma forma de beneficiar corredores que sofrem de dor patelofemoral.

Afinal de contas o que é melhor?

Ainda não existe um corpo de evidências que possa apontar para um modelo biomecânico de corrida. O que a literatura apresenta nos leva a concluir que existe muito da individualidade do atleta. Podemos observar isso nos comentários do post anterior. Existem casos onde a mudança na forma da pisada não resulta em alterações positivas para o atleta. Liberman observou que 83% dos atletas que são acostumados a correr calçados quando submedidos a corrida descalça atacam o solo com os calcanhares e isso aumenta em 8,6% o impacto da pisada. O mesmo autor observou que atletas que passam a utilizar calçados minimalistas, após 6 semanas acabam alterando sua pisada para a parte anterior do pé sem receber nenhuma instrução consciente sobre a pisada.

O que precisa ser melhor compreendido é se todos os atletas conseguem aprender essa “habilidade” da corrida descalça da mesma forma, lembrando que o impacto nas articulações dos pés é muito grande durante o processo de aprendizagem.

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O objetivo do texto (e da ciência em geral) é levantar a poeira do comodismo. Cabe aos profissionais envolvidos com corrida estudarem e se atualizarem para poder trabalhar com segurança e otimização. Também cabe aos consumidores (alunos, pacientes, clientes) que se informem muito bem de quem (ou de onde) estão obtendo informações. Afinal, o que está em risco é a sua saúde.

Segunda feira vamos conversar cobre a performance. Como a corrida descalça ou a utilização dessa técnica com calçados pode interferir no seu desempenho.

Até mais pessoal!


Referências

Tam, Nicholas, et al. “Barefoot running: an evaluation of current hypothesis, future research and clinical applications.” British journal of sports medicine(2013): bjsports-2013.

Salzler MJ, Bluman EM, Noonan S, et al. Injuries observed in minimalist runners. Foot Ankle Int 2012;33:262–6.

Thijs Y, De Clercq D, Roosen P, et al. Gait-related intrinsic risk factors for patellofemoral pain in novice recreational runners. Br J Sports Med 2008;42:466–71.

  • Yuri Motoyama

    ok