Educação Física: Ciência X Tradição

Por Yuri Motoyama

Acredito que em todas as profissões existem brigas entre a ciência e o tradicionalismo. Em algumas áreas parece que o conhecimento contemporâneo está se destacando e as pessoas estão mais preocupadas em seguir fatos do que o senso comum. Para termos um exemplo disso, hoje se um indivíduo tem câncer é muito mais provável que ele procure um médico em primeiro lugar (ciência) do que uma receita caseira (tradicionalismo / senso comum) ou um curandeiro (religião).

Acredito que para a ciência ganhar força dentro de uma área ela precisa de dois pontos fundamentais: tempo para a própria ciência avançar e profissionais comprometidos.

A Educação Física é uma ciência recente?

Por incrível que pareça a ciência tem um olhar sobre o treinamento a quase um século e meio. Se procurarmos pela entrada “physical exercise” no pubmed encontramos o artigo mais antigo sobre exercício. O artigo que observou o efeito do exercício na temperatura corporal foi publicado em 1871 na The Britsh Medical Journal.

Clique aqui e veja um dos primeiros artigos relacionados ao treinamento.

Porém comparado com outras áreas da saúde, a Educação Física só teve seus conhecimentos extrapolados com a popularização do fisiculturismo, Schwarzenegger (eu sempre o olho no google para escrever) e academias de ginástica. Antes disso o treinamento físico era exclusividade das artes marciais e da rotina militar. Esse “boom” da atividade física como ferramenta para cultuar um corpo perfeito vem desde os anos 60.

Uma nova proposta para Educação Física

Poucos anos depois da popularização do fisiculturismo tivemos uma associação da atividade física com a promoção de saúde. Foi com o conceito de jogging que começou uma nova onda de treinamento: a corrida. Para termos uma ideia de como a década de 60 foi determinante para a ciência do treinamento, ela iniciou com 150 e terminou 848 artigos publicados com o termo exercício físico (fonte Pubmed).

Com a drástica alteração da dieta americana e consequentemente a forma do mundo todo se alimentar (graças a globalização), a humanidade sofreu com a obesidade e suas doenças associadas. Agora vivemos em uma época onde a ciência do treinamento não serve somente para o culto a um corpo perfeito ou a práticas militares. Hoje temos alunos ingressando nas academias sob a premissa:

“Estou aqui só para manter minha saúde”

E como as coisas andam no Brasil?

O cenário brasileiro é bem mais desesperador, vemos claramente isso pela institucionalização do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) que em 01/09/1998 conseguiu formalizar a Educação Física como profissão. Antes disso você não se aposentava como educador físico (que ainda não era reconhecida como profissão).

Mas antes de existir a profissão Educador Físico, já existiam as academias. E quem trabalhava nesses locais eram alunos experientes, dificilmente se encontravam profissionais qualificados. Esses “treinadores” de antigamente seguiam a fórmula passada de gerações em gerações através dos fisiculturistas (e figuras femininas da moda) que de forma empírica iam descobrindo formas de se obter resultados.

Hoje a ciência do treinamento já está estabelecida no cenário internacional e amplamente divulgada pelo mundo. Apesar da profissão educador físico não existir em todos países, cada vez mais as pessoas procuram profissionais qualificados para orientar seus treinamentos. Mesmo com esse avanço todo na ciência do treinamento (18.368 artigos publicados em 2014), os consumidores de saúde ainda sofrem com profissionais que se recusam a acompanhar a literatura científica. Esse processo ainda faz com que a profissão Educação Física seja muito mal vista. Muitos pseudo-profissionais acabam manchando o trabalho de excelentes profissionais que estão se esforçando para levar qualidade para as escolas, academias e centros de treinamento.

Clique aqui e ouça um podcast sobre o cenário científico nacional e seu processo de analfabetização.

A estruturação do ensino nacional tem muita parcela de culpa nisso, porém ainda temos ótimos bons cientistas do treinamento no Brasil. Conversando com novos profissionais que vem se formando eu vejo que existe uma grande parcela que está preocupada em não cair no senso comum das 3×15 ou 20 minutos no mínimo de esteira para queimar gordura. Isso é bem animador, pois estamos começando a ter mais professores críticos atuando. Professores que não aceitam uma receita de bolo ou uma verdade pronta. Professores que vão e questionam o “grandão” que passa treino na academia com “base na sua experiência”. Professores que tenho certeza que vão tirar esse fantasma do tradicionalismo de cima da nossa profissão.

Se você ainda tem dúvida entre o professor que estuda e o grandão que treina a muito tempo, é bem capaz que você morra se tomar um copo de manga com leite.


  • Marco Machado

    Excelente questionamento, porém com múltiplas respostas e novos questionamentos. Para dar mais subsídios a discussão queria levantar alguns pontos. Em qualquer área (inclusive a medicina citada por você) ainsa temos profissionais que são analfabetos científicos. Como docente em vários cursos de nível superior posso verificar isso (apesar de não ser uma informação científica). Temos parte da culpa dos “pseudocientistas”, ou seja, pessoas que estão publicando trabalhos com conflito de interesses ou mesmo erros metodológicos básicos dando resultados incoerentes com o que se observa na realidade. Temos também parte da culpa nos próprios cientistas que por vezes não sabem fazer chegar essas informações aos profissionais de forma clara.

    Os profissionais não foram preparados/estimulados para ter uma visão crítica, e muitas vezes confundem visão crítica com escolher (sem base nas evidências) aquilo que lhe parece mais conveniente entre as alternativas. Também acham que pegar informações a esmo e construir um “programa” de exercícios torna esse correto de imediato.
    Alguns “formadores de opinião” em Ed Física por vezes estão mais interessados em seguidores do que em real formação de profissionais mais qualificados. Isso é um grande problema em muitas áreas do conhecimento e profissões. Disseminam informações, métodos e regras como se fossem científicas.
    Enfim, meu comentário está quase tão longo quanto teu post (desculpe) mas a lista de problemas não está finalizada. Abraços e continue com o ótimo trabalho.

    • Yuri Motoyama

      Perfeito professor! Que contribua com mais 100 parágrafos se quiser, os posts mais valiosos que eu tenho aqui foram os que justamente se complementaram através do ponto de vista de todos!

      Lendo o que você escreveu eu fico pensando em um ponto básico dessa discussão toda e ainda acho que voltamos a nossa formação. Assim como o senhor citou, nos falta um senso crítico que teria que ser estimulado desde os primeiros passos da educação de um cidadão. Hoje sabemos que nas escolas temos um processo de analfabetização total, quanto menos um aluno perguntar é melhor. Aí damos o azar desses alunos chegarem a uma posição de “compartilhadores” da ciência e publicarem trabalhos com equívocos metodológicos e lógicos.

      Se formássemos crianças críticas, não teríamos “formadores de opinião” e seus seguidores. Acredito que um indivíduo crítico não aceita seguir um ídolo e sua “cagação” de regras.

      Muito agradecido pelo comentário professor! Um abração!

  • Fabio Rocha de Lima

    Boa matéria Yuri, parabéns!

    Também percebo esse tipo de resistência com relação ao conteúdo científico principalmente na nossa área.

    Nos referenciarmos somente pela nossa experiência é um erro enorme de qualquer profissional independente da área. O empirismo é importante sim, mas temos que saber dosá-lo e utilizar muito bem essa ferramenta. Afinal, a intuição parte daqui.

    Realmente, temos um problema muito grande com o ensino no nosso país, mas devemos reconhecer esses pontos e tentar intervir de alguma forma. Começando por questionar o profissional responsável pelo seu treino…rsrs…

    Abraços.

    • Yuri Motoyama

      Um ponto que você comentou que eu acho essencial para essa mudança: “questionar o profissional responsável pelo seu treino”. Acho que quando nós profissionais fizermos nossa parte e começarmos a divulgar informações sobre a promoção da qualidade de vida através do treinamento. As pessoas começarão a ter um senso crítico mais apurado e não acreditação em qualquer tipo de besteira. Enfim, parte de nós! Abraço!

  • Jackson – MMA

    Excelente matéria cara!Hoje noto a diferença entre a ciência e a pratica dela, qual me faz diferenciar de uma classe reprodutora de informações e treinamento. E graças a você et. al rsrsr, e toda a equipe do 4×15 que despertei mais ainda o desejo de estudar, perguntar, argumentar e fundamentalizar (nem sei se existe essa palvra) a ciência, que está disponível a todos. Parabéns!

    • Yuri Motoyama

      Temos que bater palmas para vocês, profissionais que estão mostrando um trabalho de qualidade. Aplicando a verdadeira ciência do treinamento! Abraço mestre!

  • Fabio

    Parabens Yuri, está cada vez melhor!

    • Yuri Motoyama

      Agradecido Fábio! Abraço!

  • Espartano Souza Gonsales

    Gostaria de entender o pq da pagina inicial do site (feed) mostrar posts
    aleatorios e não os mais recentes. Isso melhoraria e muito a
    visualização do site.

    Outra coisa que foge ao post, é que
    gostaria que falassem de poliformismo genetico, em podcast ou em
    materia, aposto que a galera iria piraaaaar!

    • Yuri Motoyama

      Olá Espartano!!!
      Muitas vezes eu utilizo postagens antigas e as “reposto” para mudar o conteúdo da página inicial tentando oferecer algum texto antigo para um visitante novo. Geralmente os conteúdos novos ficam um tempo maior, mas realmente após algumas semanas eles já “somem”. Vou pensar sobre isso. Com relação a esse tema eu preciso ver algum especialista sobre o tema para nos ajudar. Mas realmente seria um ótimo tema. Agradecido pelo comentário chefe!