Ética profissional na saúde: Já viu médico prescrever treinamento?

Apresentação1

Por Yuri Motoyama

Estava lendo uma matéria que saiu recentemente na revista veja com o título “quem são os doutores das bombas”. E o que me preocupou não foi o fato de médicos estarem prescrevendo hormônios em doses que ultrapassam as profiláticas (do grego prophýlaxis = cautela). O que me preocupou foi que esses “doutores” também já colocam na mesa uma xérox de um treino para o infeliz que paga a consulta (e o treino é igual para todo mundo!). Uma falta de ética profissional sem limites!

Clique aqui para ler a matéria na íntegra.

Para não cruzarmos os pontos de vista eu já vou deixar bem claro que estou considerando dois fatores: ética profissional e saúde.

Para mim ética profissional se resume em saber o que é certo e o que é errado dentro dos limites da sua profissão. Uma criança a partir de uma certa idade já tem conceitos éticos definidos. O que eu quero dizer é que depois que aparece a sujeira por debaixo do tapete não existe desculpa. Os profissionais sabem quando não estão sendo éticos e não existe a desculpa: “Eu não sabia que isso fazia mal”, “o cliente insistiu que eu fizesse aquilo” ou “ele sabia dos riscos”. Quando um médico prescreve exercício ele sabe que está errado, quando um educador físico prescreve uma dieta ele sabe que está errado, quando um nutricionista dá um atestado médico ele sabe que está errado. Não tem inocente nessa história.

Eu sei que existem pessoas que vão procurar esses profissionais e que estão pouco se importando com a própria saúde. E sei que eles vão fazer de tudo para alcançar o resultado estético desejado. Essas pessoas vão batendo de porta em porta, consultório em consultório, academia em academia até encontrar um “profissional” que esteja disposto prostituir sua profissão, cuspir no código ético profissional e fazer o que ele sabe que está errado.

Como professor, já recebi treinamentos prescritos por nutricionistas, médicos, fisioterapeutas e não se espante, as pessoas imprimem treino pela internet e levam para academia (para uns é novidade!). Existem vários treinos prontos na internet onde o leigo pode acessar e utilizar.

Se quiser ouvir um pouco dos ossos que temos que roer na educação física clique aqui.

Um belo dia chega um e-mail (nem sei como) de um certo doutor que prescreve “avaliação física, modulação hormonal e elaboração de programas voltados a alta performance” e quando bati o olho no nome já liguei os pontos. Na academia que eu trabalhava haviam aparecido vários alunos com treino prescrito pelo “colega”.

Chega uma hora que isso cansa e como temos o respaldo de um conselho federal decidi denunciar. Copiei o e-mail e encaminhei para o CREF.

Eis que me respondem:

Prezado Senhor Yuri, Em atenção à mensagem recebida de V.Sa., comunicamos que o Agente esteve recentemente no local e verificou que não são oferecidas atividades físicas no consultório. O Sr. xxxx e a Sra. xxxx atuam na parte clínica  e indicam os pacientes para os profissionais de Educação Física que atuam na parte do treinamento. Limitados ao exposto.

Agora para e pensa comigo. Se eu sou um profissional que estou fazendo uma coisa errada, bate na minha porta uma fiscalização (toda uniformizada) e me pergunta: “você está fazendo alguma coisa errada?”. Você acredita que eu, como um profissional “super ético” vou colocar minhas mãos na mesa e dizer: “Estou sim, me algeme e me prenda por exercício ilegal da profissão…”

Se a fiscalização quiser pegar pesado mesmo é bem simples basta ver o exemplo na reportagem. Se eles precisam de um flagrante, não é dessa forma que vão conseguir…

Só que não adianta você compartilhar isso, bater boca com o CREF, brigar com outros profissionais se você fala mal de outro professor somente para pegar personal, critica um treino de outro professor para ganhar um aluno, tem uma academia com professores sem carteira assinada, esconde estagiários ou professores não formados quando a fiscalização do CREF bate na sua porta…

Lembre-se que quando aponta um dedo para uma pessoa tem três dedos apontando para você!

A questão aqui é a diferença entre o que é certo e o que é errado. Não existe “laranja” nessa história, todo mundo sabe o que faz!

Tem gente que fala que ser correto é complicado em um país que tem como mote a expressão “jeitinho brasileiro”, eu já prefiro pensar que existem dois tipos de pessoas: as com ética profissional e as corrompíveis!

É bem simples.

Clique aqui e ouça um podcast introdutório sobre o tema anabolizantes e doping.


  • Yuri Motoyama

    ok

  • Fabio Rocha de Lima

    Fala mestre!

    Perdoe-me por resgatar um post antigo, mas gostaria de comentar sobre o assunto abordado.

    Com pouca experiência que já tive na área, com ênfase em estágios, não foi difícil encontrar os profissionais “severinos”, que vulgarmente falando “metem o nariz onde não é chamado”. Já vi nutricionistas falando “pede para o seu ‘professor’ passar 3×20 porque você quer emagrecer”, cardiologistas: “faz ‘aeróbio’ 1x por semana pq esse treino irá fazer com o que o seu EPOC perpetue por mais de 72h” (a intensidade era de 30% abaixo do LAn1 da cliente…rsrs…) médicos falando que “o aeróbio tem que ser mais que 30 minutos” (volume, intensidade e densidade passaram longe..rsrsrs…), e vários outros absurdos que já tive a felicidade ou infelicidade de presenciar.

    Pegando como exemplo a nossa área, podemos ver alguns personais prescrevendo dietas e/ou suplementos, e depois reclamando da ficha prescrita por terceiros. Mas na verdade creio que um dos grandes equívocos que vão gerar todos estes transtornos, começam na graduação, pois não sinto uma preocupação por parte de alguns professores com a ética desses futuros profissionais. Lembro quando um professor comentou em aula: “É muito mais fácil olhar para a ‘bunda’ do outro, do que olhar para a minha”. O exemplo disso é o sucesso que os realitys shows fazem em nossa sociedade.

    Como costumo em algumas vezes discutir pelo lado da antropologia, percebo que ética, moral e valores são vertentes que se relacionam umas com as outras, sendo que está última sofre grande influência da cultura da sociedade (as outras também sofrem).

    Quanto ao estagiário ser a mão de obra barata, infelizmente é um cenário muito nítido, tanto para os que estão dentro ou fora da área. Talvez porque principalmente os donos desses estabelecimento não reconhecem o que eles poderiam ganhar investindo no conhecimento tanto dos estagiários, quanto de seus profissionais. A sociedade hoje está um pouco mais (diria mínima) questionadora do que antes, mas que ainda a “síndrome da ignorância” acomete grande parte da população.

    Você já leu algum estudo que trata-se sobre esse tema?

    Abraços!

    • Yuri Motoyama

      repply

      Yuri Motoyama

      Educador Físico – CREF 034264-G/SP

      Mestre em Ciências da Saúde – UNIFESP

      Grupo de estudos e pesquisas em fisiologia do exercício – UNIFESP

      Especialista em Fisiologia do Exercício – UNIFESP

      De: Disqus [mailto:notifications@disqus.net]
      Enviada em: terça-feira, 20 de janeiro de 2015 00:49
      Para: yuri.motoyama@gmail.com
      Assunto: Re: Comment on Ética profissional na saúde: Já viu médico prescrever treinamento?

      “Fala mestre! Perdoe-me por resgatar um post antigo, mas gostaria de comentar sobre o assunto abordado. Com pouca experiência que já tive na área, com ênfase em estágios, não foi difícil encontrar os profissionais “severinos”, que vulgarmente falando “metem o nariz onde não é chamado”. Já vi nutricionistas falando “pede para o seu ‘professor’ passar 3×20 porque você quer emagrecer”, cardiologistas: “faz ‘aeróbio’ 1x por semana pq esse treino irá fazer com o que o seu EPOC perpetue por mais de 72h” (a intensidade era de 30% abaixo do LAn1 da cliente…rsrs…) médicos falando que “o aeróbio tem que ser mais que 30 minutos” (volume, intensidade e densidade passaram longe..rsrsrs…), e vários outros absurdos que já tive a felicidade ou infelicidade de presenciar. Pegando como exemplo a nossa área, podemos ver alguns personais prescrevendo dietas e/ou suplementos, e depois reclamando da ficha prescrita por terceiros. Mas na verdade creio que um dos grandes equívocos que vão gerar todos estes transtornos, começam na graduação, pois não sinto uma preocupação por parte de alguns professores com a ética desses futuros profissionais. Lembro quando um professor comentou em aula: “É muito mais fácil olhar para a ‘bunda’ do outro, do que olhar para a minha”. O exemplo disso é o sucesso que os realitys shows fazem em nossa sociedade. Como costumo em algumas vezes discutir pelo lado da antropologia, percebo que ética, moral e valores são vertentes que se relacionam umas com as outras, sendo que está última sofre grande influência da cultura da sociedade (as outras também sofrem). Quanto ao estagiário ser a mão de obra barata, infelizmente é um cenário muito nítido, tanto para os que estão dentro ou fora da área. Talvez porque principalmente os donos desses estabelecimento não reconhecem o que eles poderiam ganhar investindo no conhecimento tanto dos estagiários, quanto de seus profissionais. A sociedade hoje está um pouco mais (diria mínima) questionadora do que antes, mas que ainda a “síndrome da ignorância” acomete grande parte da população. Você já leu algum estudo que trata-se sobre esse tema? Abraços!”

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      Fabio Rocha de Lima

      Fala mestre!

      Perdoe-me por resgatar um post antigo, mas gostaria de comentar sobre o assunto abordado.
      Com pouca experiência que já tive na área, com ênfase em estágios, não foi difícil encontrar os profissionais “severinos”, que vulgarmente falando “metem o nariz onde não é chamado”. Já vi nutricionistas falando “pede para o seu ‘professor’ passa r 3×20 porque você quer emagrecer”, cardiologistas: “faz ‘aeróbio’ 1x por semana pq esse treino irá fazer com o que o seu EPOC perpetue por mais de 72h” (a intensidade era de 30% abaixo do LAn1 da cliente…rsrs…) médicos falando que “o aeróbio tem que ser mais que 30 minutos” (volume, intensidade e densidade passaram longe..rsrsrs…), e vários outros absurdos que já tive a felicidade ou infelicidade de presenciar.
      Pegando como exemplo a nossa área, podemos ver alguns personais prescrevendo dietas e/ou suplementos, e depois reclamando da ficha prescrita por terceiros. Mas na verdade creio que um dos grandes equívocos que vão gerar todos estes transtornos, começam na graduação, pois não sinto uma preocupação por parte de alguns professores com a ética d esses futuros profissionais. Lembro quando um professor comentou em aula: “É muito mais fácil olhar para a ‘bunda’ do outro, do que olhar para a minha”. O exemplo disso é o sucesso que os realitys shows fazem em nossa sociedade.
      Como costumo em algumas vezes discutir pelo lado da antropologia, percebo que ética, moral e valores são vertentes que se relacionam umas com as outras, sendo que está última sofre grande influência da cultura da sociedade (as outras também sofrem).
      Quanto ao estagiário ser a mão de obra barata, infelizmente é um cenário muit o nítido, tanto para os que estão dentro ou fora da área. Talvez porque principalmente os donos desses estabelecimento não reconhecem o que eles poderiam ganhar investindo no conhecimento tanto dos estagiários, quanto de seus profissionais. A sociedade hoje está um pouco mais (diria mínima) questionadora do que antes, mas que ainda a “síndrome da ignorância” acomete grande parte da população.
      Você já leu algum estudo que trata-se sobre esse tema?

      Abraços!
      9:49 p.m., Monday Jan. 19 | Other comments by Fabio Rocha de Lima

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