Existe adaptação dos tendões no treinamento de força?

Por Fabio Rocha

Nas discussões envolvendo sobrecarga mecânica, principalmente as que destacam o treinamento de força, é muito comum encontrarmos estudos apontando diversos benefícios que essa prática corporal (treinamento de força) exerce no músculo esquelético, e muitos deles já são bem fundamentados. Agora, como ficam os tendões nessa história? Vamos ao texto de hoje!

Antes de avançarmos, é necessário compreender a diferença entre o “estresse mecânico” e “estresse metabólico“

  • O estresse mecânico, também encontrado na literatura como estresse tensional, pode ser entendido como sendo a forma de propiciar estímulos através de cargas externas elevadas (Schoenfeld, 2010);
  • O estresse metabólico, consiste na realização de exercícios com redução drástica ou progressiva da carga externa, levando a depleção (diminuição) de substratos energéticos, acúmulo de metabólitos, hipóxia (baixa disponibilidade de oxigênio) e aumento das espécies reativas de oxigênio (EROs) (Teixeira, 2015);

Uma meta-análise publicada pelos autores BOHM et al (2015) teve por objetivo revisar os diferentes estudos que verificaram adaptações nos tendões patelar e calcâneo, devido a sobrecarga mecânica imposta pelo treinamento. Um dos critérios para escolha foi de que os estudos deveriam conter humanos assintomáticos (não ter qualquer doença) na sua amostra. Os estudos analisaram a rigidez tendínea (um conceito da biomecânica que podemos entender como uma relação de tensão x comprimento, que está diretamente relacionado a produção de energia elástica), módulo de Young (razão entre a tensão e a deformação de acordo com a carga aplicada), e área de secção transversa.

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O valor de effect size (tamanho do efeito) apresentou valores de 0,70 para rigidez no tendão, 0,69 para o módulo de Young e 0,24 para área de secção transversa. O efeito para intervenção geral nas três variáveis analisadas, foi significativa, independente da sobrecarga aplicada. Entretanto, a grande diferença com relação a rigidez e módulo de Young entre os estudos, sugerem que as diferentes sobrecargas impostas, pode ter afetado as respostas adaptativas.

Outro fator curioso que os autores constataram, é que o tipo de contração muscular (concêntrica, excêntrica e isométrica), parece ser irrelevante com relação a adaptação tendínea.

Sobre os efeitos crônicos nesse contexto, a rigidez parece ser mais pronunciada em comparação a área de secção transversa.

Os autores concluíram com essa meta-análise que sobrecargas mecânicas elevadas, são mais eficazes para promover adaptação nos tendões, e que estímulos com durações longas (> 12 semanas) trazem mais resultados quando comparados aos estímulos mais curtos.

Ao final desse texto, podemos destacar alguns pontos importantes:

  1. A sobrecarga mecânica é um fator importante para se analisar quando o objetivo for promover alguma adaptação nos tendões com o treinamento;
  2. Os tendões respondem a alteração dessa sobrecarga, adaptando-se ao estímulo imposto, alterando sua mecânica (rigidez), material (módulo de Young) e podendo em alguns casos, alterar suas propriedades morfológicas (área de secção transversa);
  3. O efeito crônico do exercício, destaca a predominância de um benefício sobre os outros.

Até o próximo texto!


REFERÊNCIAS:

BOHM, S.; MERSMANN, F.; ARAMPATZIS, A. Human tendon adaptation in response to mechanical loading: a systematic review and meta-analysis of exercise intervention studies on healthy adults. Sports Med Open, v. 1, n. 1, p. 7, 2015.

SCHOENFELD, B. J. THE MECHANISMS OF MUSCLE HYPERTROPHY AND THEIR APPLICATION TO RESISTANCE TRAINING. Journal of Strength and Conditioning Research, v. 24, n. 10, p. 2857-2872, 2010.

TEIXEIRA, C. V. L. Métodos avançados de treinamento para hipertrofia. CreateSpace. 2ª edição. 2015.