Fórmula de Karvonen seria o monstro do Lago Ness na prescrição do treinamento?

Por Yuri Motoyama

Muitas academias, clinicas e centros de treinamento trabalham com fórmulas utilizadas para estimar o condicionamento cardiovascular ou “aptidão aeróbia”. Pegue algum exame cardiológico seu e procure pela frequência cardíaca máxima, provavelmente vai ser 220-sua idade. Em academias as coisas são mais complicadas, pois não existe nenhum tipo ajuste de intensidade de treinamento aeróbio, quando muito, alguns professores que trabalham com atendimento personalizado usam a fórmula 220-idade para estimar as zonas de treinamento.

Surpreendentemente, um estudo publicado por Landwehr e Robergs (2002) não encontrou nenhuma publicação sobre a validação dessa fórmula. Para piorar verificaram que a origem dessa fórmula é superficialmente estimada com base em dados compilados em 1971.

Batizada de formula de Karvonen, 220-idade é utilizada a muito tempo para estimar a capacidade física por ser um método barato e de fácil aplicação. O único material necessário é um monitor cardíaco, que hoje em dia encontramos a preços acessíveis. Uma das aplicações dessa fórmula também seria estabilizar valores de segurança submáximos, uma medida de segurança para você parar com sua atividade física antes de chegar a sua frequência cardíaca máxima.

6445527_origA primeira vez que uma formula parecida foi publicada ela era de 212-0,77(idade) e isso aconteceu em 1938. Bem diferente da formula de Karvonen que conhecemos hoje.  Para retirar todas as dúvidas nada melhor que ir direto na fonte, em agosto de 2000 o Dr. Karvonen foi contactado para sanar essas dúvidas, e para surpresa dos pesquisadores, ele nunca publicou um artigo validando essa fórmula. E ainda recomendou que procurassem pelo Dr. Âstrand para esclarecimento dessa questão, que também alegou não ter publicado nenhum dado utilizando essa fórmula.

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Vários textos, artigos e livros específicos atribuem a autoria dessa fórmula a várias diferentes fontes (isso quando a fórmula é referenciada) e por uma falta de cuidado acabam apontando para lugar nenhum. Os autores do trabalho encontraram 43 formulas de diferentes estudos com suas análises estatísticas (quando realizadas), uma aproximação de todos esses estudos chegou a uma fórmula de 208,754-0,734(idade).

O grande problema dessas formulas é o erro padrão que elas apresentam que tem uma média de 7,2 batimentos por minuto (BPM). A própria tradicional fóruma de “Karvonen” apresenta um erro padrão de até 11 BPM. Sendo que segundo os pesquisadores o erro aceitável seria de 2 BPM, invalidando todas as fórmulas apresentadas para estimar a Frequência Cardíaca Máxima (FCmax).

O estudo aponta em sua conclusão algumas recomendações sobre o uso de 220-idade:

  • Atualmente não é um método aceitável para estimar a frequência cardíaca máxima.
  • Se for usar algum tipo de calculo para estimar a FCmax, seria indicado usar fórmulas com correções para públicos específicos (idosos, crianças, homens, mulheres, etc.). Mesmo assim ainda encontraríamos um erro padrão que a desconsideraria.
  • Pela falta de precisão, também não trabalhar com a fórmula 220-idade para cálculos que dependam dela para estimar o VO2max.
  • As instituições que formam profissionais da área da saúde deveriam ser mais rigorosas na formação para que seus estudantes consigam reconhecer as predições estatísticas de erro e suas consequências práticas da aplicação de métodos com um grande padrão identificado.
  • Os autores de publicações (livros e artigos) devem ser mais críticos na hora de referenciar a fórmula 220-idade.

Atualmente existem outros métodos para se estimar a capacidade aeróbia de um indivíduo, alguns bem acessíveis a todos profissionais da saúde e outros mais caros e precisos. Muitas informações relevantes ainda serão pesquisadas nessa área o que precisamos é sempre ter os olhos abertos e nos atualizar constantemente para não vir a realizar um trabalho fundamentado em “nada”.

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Referência

Robergs, Robert A., and Roberto Landwehr. “The surprising history of the “HRmax= 220-age” equation.” J Exerc Physiol 5.2 (2002): 1-10.

  • Yuri Motoyama

    ok

  • Bruna

    Legal, faz tempo que estou procurando fontes confiáveis sobre isso..mas faltou informações, o que podemos utilizar então para estimar a FC máx? (métodos simples/e método mais caro-preciso)?

    • Yuri Motoyama

      Oi Bruna! Para a aquisição da FCmáx de forma confiável seria necessário fazer um teste de esforço máximo naquele indivíduo. Pode ser feito em qualquer ergômetro ou em campo, porém, por medidas de segurança esse teste deveria ser feito em um local que tenha equipamentos de primeiros socorros e um socorrista pois estamos falando de um teste máximo. Mas mesmo com esses dados, a FC apresenta uma variabilidade muito alta, sendo influenciada por vários outros fatores como alimentação, descanso, horário do treinamento, aspectos emocionais, etc. Por isso que não considero a FC uma variável consistente para estabelecermos nossa prescrição de treinamento.

      Uma alternativa boa para esse caso seria estimar o L2 através de parâmetros metabólicos como lactatemia ou glicemia e prescrever o treinamento por essas variáveis.

      Abração!

      • Bruna

        Interessante sua dica..na faculdade o professor só falou sobre estimar a FC máx para prescrição de treinamento.. por isso é bom sempre pesquisar, o que seria “L2”?

        • Bruna

          acho que descobri..L2=Limiar anaeróbio..

          • Yuri Motoyama

            Oi Bruna! Eu não gosto de chamar os limiares de “aeróbio e anaeróbio” pois isso confunde muito alguns conceitos sobre fisiologia do exercício. Eu chamo o primeiro limiar de transição metabólica de L1 e o segundo de L2 (mas acho que você já sabe o que é agora…rs). Abração!!!