Mestrado em Educação Física: 7 passos para começar!

Muitos professores tem dúvidas sobre como iniciar a carreira acadêmica. Observo isso quando participo de encontros, cursos ou pelos bate papos na internet. A pouco tempo participei de um processo seletivo e durante uma dinâmica, via que quase a metade dos professores dizia: “meu objetivo de vida é um mestrado em Educação Física”. Outro ponto curioso é que uma grande parte das pessoas que acessam o site procuram por informações sobre o mestrado. Então vem a grande pergunta…

– Por onde começar?!

Um pouco do meu caminho

Me lembro quando me formei em 2002, tive um excelente professor de fisiologia chamado Marcelo Árias (um abraço querido mestre!). Naquela época o MEC ainda não pegava no pé das universidades privadas então a maior parte dos professores era apenas graduado em Educação Física. Esse meu professor era um dos poucos que tinha o título de mestre na graduação.

Após formado eu fiquei super entusiasmado para continuar estudando e me especializando, foi então que no ano seguinte já comecei uma pós graduação em fisiologia do exercício na UNIFESP em São Paulo. Lá conheci mestres e doutores, porém via que a maioria era médico e a minoria era educador físico. Pensava “onde estão os professores com Mestrado em Educação Física?”

Meu objetivo era acabar a graduação e já tentar o mestrado, porém não tinha informação nenhuma sobre como fazer isso. Acreditava que ingressar no mestrado era como se fosse uma pós graduação Lato Sensu, bastava se inscrever e começar a assistir novas aulas. O que aconteceu foi que eu me formei, pulei do mundo “pós-graduação” para o “mercado” como se um viajante pulasse para fora de um ônibus no meio da estrada. Não sabia o que fazer. Então fui para o que me restava: Trabalhar!

Nisso fiz várias outras pós graduações e fui amadurecendo profissionalmente. Foi então que o “mundo conspirou” (meu orientador que não leia isso, rs) para que eu caísse em um grupo de estudos na UNIFESP aqui na baixada santista. Foi nesse momento que conheci outro mundo. Graças a figura mais importante no meu processo de iniciação acadêmica, meu orientador Prof. Doutor Paulo Azevedo (o sr. é o CARA! rs) eu consegui todas minhas respostas (e o dobro de novas perguntas), porém ele me ajudou em como proceder para entrar no mestrado.

Enfim, depois de uma década, cá estou eu formado como Mestre em Ciências da Saúde, com um sonho profissional realizado e caminhando no doutorado. As vezes eu penso que demorei muito para fazer tudo isso, em contrapartida penso que se tivesse entrado no mestrado em 2004 poderia não estar tão maduro e provavelmente não teria a oportunidade de conhecer essas excelentes pessoas que me acompanharam nessa grande fase da minha vida.

Onde eu deveria me instruir sobre um mestrado em Educação Física?

Na verdade, no Brasil são poucas instituições que oferecem um mestrado em  “Educação Física” de maneira específica. O que existem são as Áreas Linhas de pesquisa que fazem parte dos Programas de Pós Graduação das instituições. Então, o pós-graduando tem que escolher dentro de uma área, algum programa de pós graduação que possa ter alguma afinidade com Educação Física como Fisiologia do Exercício, Ciências do Movimento, etc.

Essa desinformação sobre a como funciona esse sistema (pós graduação), acredito eu, que seja uma falha enorme do sistema educacional brasileiro, onde o pensamento científico e o mundo acadêmico deveriam ser apresentados para nós desde a nossa infância. Nos primeiros anos do ensino fundamental. Um grande ponto negativo do nosso sistema educacional (comparado com os de países de primeiro mundo) é que as etapas desse sistema não se conversam. Você é chutado do ensino fundamental para o médio, depois dá um salto para o ensino superior e quando existe a possibilidade (quando se tem motivação) dá um outro salto para a academia (não a das esteiras e sim a dos laboratórios, rs).

Essas etapas não constituem um método progressivo ao meu ver, são como plataformas independentes e quando deveriam ser uma rampa.

Voltando ao meu exemplo para facilitar, eu ingressei no mestrado dentro do Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde da área Promoção, Prevenção e Reabilitação em Saúde para dai escolher a linha de pesquisa que meu orientador atua que é Estratégias Interdisciplinares para promoção, prevenção e reabilitação em saúde. Ai dentro disso estudamos e desenvolvemos pesquisas sobre mecanismos de fadiga que foi o tema da minha dissertação.

Clique aqui e veja 6 coisas que você deveria saber ao terminar a faculdade de educação física.

Existem muitos educadores físicos com o título de Mestre no Brasil?

Atualmente existem 338.000 profissionais registrados no Conselho Federal de Educação Física (dados informados pela própria instituição em novembro de 2014), lembrando que esse número acaba não correspondendo a realidade, pois existem profissionais que não são registrados. Na figura abaixo conseguimos ver desses 338 mil educadores físicos temos um número 1.504  com o título de Mestre.

Mestres Brasil
Dados coletados em 27/11/2014 do site http://lattes.cnpq.br/

Outro dado interessante é se formos comparar o número de mestres considerando as regiões do Brasil.  Vemos que o sudeste e sul tem quase o triplo de educadores físicos pós graduados (stricto sensu) que as regiões norte, nordeste e centro-oeste.

Número de Mestres Região
Dados coletados em 27/11/2014 do site http://lattes.cnpq.br/

Os números são promissores?

Um ponto interessante é que se formos observar em âmbito nacional a Educação Física está em terceiro lugar no número de mestres formados. Porém esse número corresponde a apenas 0,44% de todos educadores físicos registrados no CONFEF.

Respostas a partir desses números necessitariam de uma análise profunda sob várias óticas, porém podemos sugerir alguns pontos:

    • Muitos profissionais (assim como eu) não sabem o caminho para se ingressar na área acadêmica e acabam desistindo por falta de instrução e motivação.
    • O Brasil ainda está engatinhando em formação de cientistas e produção científica de qualidade, apesar de existirem vários programas e órgãos de fomento a pesquisa isso ainda é pouco divulgado e comentado durante nosso processo de formação.
    • Muitos profissionais vêem um abismo entre a carreira acadêmica e a prática profissional. Acabam por optando não continuarem com seus estudos por acreditarem que isso os afastaria da prática. Sendo que é exatamente o contrário, a pesquisa anda de mãos dadas com uma prática profissional de excelência.
    • Quantos educadores físicos com título de mestre você conhece? Desses, quantos se comprometem com a divulgação da ciência? Acredito que um dos grandes problemas da nossa profissão não é o estigmatizado “mal profissional” e sim uma enorme falta de comunicação. Acredito que se tivéssemos mais incentivo, se conhecêssemos os excelentes educadores físicos acadêmicos (mestres e doutores) que existem no Brasil teríamos muito mais aspirantes para ciência.
    • Existe um interesse dos educadores físicos pelo mestrado, se procurarmos no planejador de palavras chave do Google vemos que a entrada “mestrado em educação física” tem em média 320 pesquisas mensais no Google.


E finalmente, por onde começar um mestrado em Educação Física?

Não existe uma receita de bolo, as dicas que vou dar aqui são baseadas em minha experiência profissional. Espero que outros profissionais contribuam com essa discussão aqui abaixo no post.

  1. Seja apaixonado por estudar! E isso não significa que você é um nerd (para os que nasceram na minha época, um CDF), isso significa que você se apaixonou por uma área de estudos dentro da Educação Física.
  2. “Namore” pelos sites das instituições que oferecem o curso de mestrado. Tente encontrar professores/orientadores que pesquisam por temas que você também se interessaria. Mande e-mails para possíveis orientadores, chame-os em um twitter, siga suas postagens e publicações. O processo de iniciação na carreira acadêmica (mestrado) é muito importante e para que isso gere bons frutos. Para que isso aconteça, você vai ter que estar bem orientado. Imagine que é um casamento! Você não casa com o primeiro que te abre as portas, rs.
  3. Estruture sua vida financeira de forma que possa ter tempo disponível diariamente. Infelizmente o Brasil não incentiva tanto assim a carreira acadêmica. Existem bolsas de estudo, porém não são todos interessados que conseguem acesso a essas bolsas. Muitas vezes (como todo brasileiro sonhador) você vai ter que trabalhar e passar noites estudando.
  4. Participe de grupos de estudos promovidos pelos orientadores que você teve afinidade. Do mesmo jeito que temos que escolher os orientadores eles também tem que nos escolher. Ver se “os santos batem”, se o estilo de orientação lhe agrada, o convívio com o grupo do orientador, etc.
  5. NÃO PROSTITUA SEU MESTRADO! Já vi algumas vezes aspirantes a um mestrado trabalhando em áreas que são bem diferentes das que eles gostariam de estudas somente para ter o diploma de mestre. Como eu disse, como tudo na vida, você vai encarar as dificuldades de maneira muito mais suave se você está em uma área que te da tesão (não encontrei uma palavra que expressasse melhor, rs). Tem que ser uma coisa que nunca mate sua curiosidade e sim que a alimente!
  6. Veja como é o processo seletivo da instituição que você vai participar. Converse com pessoas que já participaram do processo, pegue a bibliografia para a prova teórica e vá estudando, se prepare para a entrevista, etc. Quanto mais coisas você souber menos ansioso irá se sentir.
  7. Depois que estiver dentro lembre-se: RESPIRE FUNDO! TUDO VAI DAR CERTO! (Isso era o que meu orientador mais nos falava durante os pepinos enormes que aconteciam no meio na nossa pesquisa, rs)

Gostaria de deixar aqui um abraço para meu “pai” acadêmico Professor Paulo Azevedo e meu “irmão” nessa jornada, o Dudu.

Da esquerda para a direita eu, meu pai e meu irmão!
Da esquerda para a direita eu, meu pai e meu irmão!
Se você gostou dessa história toda e tem interesse em entrar para a área acadêmica, clique aqui e ouça esse podcast!
  • DEIA

    amei seu post!!!! essa é minha tristeza, é difícil e sempre te convidam para uma linha que não é sua cara., quero fazer mas com paixão. Parabéns

    • Yuri Motoyama

      Agradecido pelo comentário! Comigo esperar deu certo, não cumpri meu “calendário de vida” mas depois de esperar o tempo certo consegui estudar o que me dá prazer. Torço por você Déia! Abraço!

  • lyvia

    Muito bom!! Bem esclarecedor, é verdade falta muita informação!! Parabéns pela iniciativa!!

    • Yuri Motoyama

      E sempre fico pensando: quanta gente não realizou esse sonho e não deu esse grande passo em sua carreira por falta de informação, não é? Muito agradecido pelo contato Lyvia! Abraço!

  • Junior Amaral

    Excelente professor. Informações válidas e importante. Tenho muito interesse em fazer um mestrado, mas como você falou, tem que ir amadurecendo. Acho que estou nesse processo de amadurecimento. E uma dúvida que tenho é a dificuldade na lingua inglesa. O nível da prova de inglês é alto?
    Abraço

    • Yuri Motoyama

      Essa prova de inglês depende da instituição, acho que até comentamos sobre isso no cast 27 (se tiver um tempo dá uma ouvidinha aqui no player do lado). Na UNIFESP onde eu estudei, era necessário realizar um teste de proficiência em lingua inglesa que é basicamente gramática e interpretação de textos na área da saúde. Como eu já estudava inglês a uns anos e joguei muito vídeo-game (rs) consegui fazer a pontuação suficiente. Na PUC por exemplo você faz uma prova de tradução e interpretação de um texto que seja específico da sua linha de pesquisa. Agora o ponto mais importante de toda essa conversa é que você vai precisar de inglês para ler os papers. A grande parte das informações de qualidade na nossa área estão em inglês e você vai ter que estudar a língua para pelo menos dominar a leitura técnica. Abraço Junior e agradecido pelo comentário!

  • Bianca

    Falta muita informação mesmo. Eu passei muito tempo para graduar, porque várias vezes tranquei os estudos por diversos problemas, por essa razão não consegui ter nem amizades, que pudessem pelo menos me dar um norte. Enfim, tenho vontade de continuar, mas me acho um tanto quanto “velha”, tenho 36, anos e não trabalhei muito na área, mas ainda sim tenho um desejo de continuar. Apesar de no momento ser mãe e me ocupar com as tarefas de casa!

    • Yuri Motoyama

      Bianca, eu acredito que se isso é seu sonho (sua vontade) você deva correr atrás. Esse lance da idade eu já até comentei em algum podcast, e minha opinião é que não existe idade ideal para se começar a estudar. Eu mesmo me formei com 22 e fui entrar no mestrado 10 anos depois. Sabe que eu até acho que depois de um certo tempo de vida temos mais experiências em algumas outras coisas e isso faz com que aproveitemos mais a faculdade. Sou professor universitário e vejo que muito da “molecada” não aproveita o curso tão bem quanto os que tem mais idade. Abração e agradecido pelo comentário

  • Carlos Costa

    Olá Yuri, excelente matéria.
    Me vejo muito no que disse sobre a falta de informação e também com o estudo postergado, como você citou e a Bianca comentou tambem.
    Você deu várias dicas interessantes, mas sinto que ainda estou um nivel abaixo e se puder me esclarecer ou dizer onde busco as informações agradeço, a verdade é que me interessei pelo tema só agora, me formei ano passado e sou concursado, (Fiz somente licenciatura) quero me tornar professor academico um dia, e não sei nem se existe a regra de primeiro se fazer uma pós para depois partir para o mestrado, e você comentou tambem sobre a entrevista, cara !!! como assim? rsrs to perdidão, mas empolgado, quero fazer!
    olhei no site da USP e parece que tens que se inscrever já com um projeto, teste de proeficiencia e os caramba.
    me aponta uma direção por favor, agradeço muito.
    Parabens pela iniciativa, pela atençaõ que percebi que dispõe, e muito sucesso pra nós!

    • Yuri Motoyama

      Olá chefe! Bom, tem muitas coisas aí que você comentou que eram minhas dúvidas no início também. Como são muitas coisas e essa é uma dúvida mais frequente eu gravei um programa respondendo todas essas perguntas aí. Se não conhece o nosso programa quinzenal (podcast) experimenta esse para ver se gosta:
      http://quatrode15.com.br/podcast-27-pos-graduacoes/
      Caso você curta, dá para assinar pelo celular e ir acompanhando o conteúdo do blog em formato de áudio também.

      Normalmente as pós graduações (especialização, mestrado, doutorado,…) tem um tipo de processo seletivo que envolve a avaliação escrita (prova), proficiência (prova de inglês ou outra língua) e entrevista (tipo entrevista de emprego mesmo, rs). Normalmente é legal você conhecer um possível orientador antes para ver qual a linha de pesquisa dele, se isso seria interessante para você estudar, se ele tem um grupo de estudos… Também tem um texto no site chamado “como escolher um orientador” que pode te ajudar.

      Abração chefe e valeu pelo comentário!

      • Carlos Costa

        Obrigado, ouvi o podcast, muito bom, me tirou várias duvidas e surgiram muitas outras…rsrs
        Mas tá de parabéns, pode deixar que vou acompanhar a partir de agora.
        Grande Abraço.

        • Yuri Motoyama

          “Tamo junto” chefe! Qualquer coisa dá um grito daí…rs