Morte e luto na sociedade atual

  Saúde mental e luto. Uma assunto “velado”…

Por Érika Perina Motoyamaluto

     Atualmente, vivemos em uma sociedade que nega-se a falar sobre morte. Para verificar a veracidade dessa afirmativa, experimente perguntar a qualquer pessoa se ela já pensou em sua própria morte ou em como ficaria sua vida se alguém amado morresse. A primeira reação da maioria das pessoas é espantar-se com a pergunta, ou então, asseguram-se de que a morte nem as veja ali, e batem três vezes na madeira mais próxima.

                Se a morte é essa desconhecida e falar sobre é tão incomodo, como reagir a ela? Em uma sociedade que não tem espaço para morte, onde “tempo é dinheiro” e o valor está no indivíduo produtivo, como lidar com a pessoa enlutada?

                Essa perplexidade diante da morte se dá, pois as pessoas não a colocam como a única certeza de suas vidas, de fato. Por isso, quando se deparam com a morte do outro, se afastam, desconversam, pois deparam-se com a própria finitude.

                Não há mais espaço para o choro, porque “a vida continua” e “o show não pode parar”. As licenças trabalhistas para o período de luto, chamadas de licença nojo (de que?), duram dois dias para os funcionários celetistas e até oito para os públicos, sendo este o tempo permitido para o choro e sofrimento de quem fica. E esse direito se restringe a apenas alguns vínculos familiares, ou seja, se seu animal de estimação, seu tio ou tia, sua madrinha ou padrinho, seu sobrinho ou sobrinha, ou se seu melhor amigo faleceu, meus pêsames!

                Cobra-se um tempo para o retorno ao trabalho, à vida social, para o cessar das lágrimas, porém, não se oferece um tempo para que as pessoas enlutadas falem de suas dores e do que perderam, que vai além do ser amado.

                Há como reverter esta situação atual, desde que a morte deixe de ser marginalizada, vista como algo macabro ou punição, devendo ser tratada como qualquer outro assunto corriqueiro, como “o que farei amanhã”, por exemplo.

Para que o processo de (re)naturalização da morte ocorra, é necessário começar a tratar o assunto desde a infância, como tema de discussões educacionais. Quem sabe assim poderemos retornar aos tempos em que os velórios eram em casa e a morte e o luto trabalhados de forma familiar.