Musculação para crianças: seria uma boa ideia?

Por Paulo Eduardo e Yuri Motoyama

Gostaria de começar esse post com uma história que presenciei durante o período que trabalhava em uma academia. Estava eu, trabalhando com outra professora no mesmo horário e nossa sala estava virada para o corredor da academia que fazia acesso a piscina. Então, sempre víamos a molecada que passava pela sala de musculação para chegar a piscina. Todos sempre passavam olhando, pois o treinamento de musculação é uma coisa que desperta a curiosidade (fora a vontade deles de vir fuçar nos aparelhos). Mas uma garotinha em especial olhava de forma que seus olhos brilhavam para dentro da sala. Um dia essa menina apareceu com sua mãe dentro da sala para dizer que ela havia dado um tempo com a natação porque estava enjoada e gostaria muito de fazer musculação. Logo preparamos um treinamento para ela e começamos a acompanhar. Ela estava muito feliz, treinava corretamente, era super disciplinada e se divertia muito durante o treinamento. Algumas semanas depois ela passa na porta da sala, novamente com suas vestimentas de natação, com uma cara triste indo para piscina. A mãe dela veio conversar conosco dizendo que o médico havia pedido para ela não fazer musculação porque ia atrapalhar o crescimento dela…

(se fosse um podcast colocaria uma música fúnebre agora)

Mas a musculação realmente trás prejuízos para uma criança ou adolescente?

Já está bem esclarecido na literatura que o treinamento resistido ou a famosa “musculação” é um método seguro, eficaz e promove uma série de benefícios à saúde (Lloyd et al., 2013). Mesmo sabendo que essa atividade promove uma série de adaptações benéficas ao organismo, não é de costume crianças e adolescentes estarem engajadas(os) em um programa de treinamento. O principal fator que contribui com o não engajamento destas populações neste método de treinamento  é a falsa premissa de que a musculação é prejudicial no processo de maturação e crescimento de crianças e adolescentes.

Matando a cobra e mostrando … a cobra morta!

Diversas revisões literatura (MALINA, 2006; FAIGENBAUM et al.,2009; LlOYD et al., 2013) publicadas em revistas cientificas bem conceituadas demonstraram os aspectos positivos do treinamento de musculação (força) voltado para crianças e adolescentes, dentre os quais destacam-se:

  1. O treinamento de força quando incluso em um programa de treinamento desportivo reduz significativamente o número de lesões desportivas (SOLIGARD ET AL., 2008);
  2. As principais causas de lesões, em crianças e adolescentes, relacionadas com a musculação é devido a falta de supervisão de profissionais qualificados (KERR  et al., 2010);
  3. O treinamento de força não interfere no processo maturação e muito menos promove lesão no disco epifisário, sendo que os poucos relatos na literatura relacionando lesão do disco epifisário com o treinamento, atribuem a lesão a falta de supervisão de profissionais qualificados (MALINA, 2006; FAIGENBAUM et al.,2009; LlOYD et al., 2013). Ou seja, é o mesmo risco que uma pessoa sem instrução se automedicar. A dipirona que reduz minha dor de cabeça tem culpa se uma pessoa toma 50 comprimidos com uísque para se matar?

Concluindo

Há alguma tempo atrás nos Estados Unidos começaram a ser desenvolvidos aparelhos de musculação adaptados ao tamanho de crianças (clique aqui para ver um exemplo) e atendimento específico. Lembro que a notícia para nós “brazucas” pareceu um absurdo (isso porque estou falando de uns 7 anos atrás), porém lá o conhecimento científico tem muito valor e muitas empresas privadas trabalham em parceria com pesquisadores para desenvolver novas propostas. Hoje o Brasil já houveram academias específicas para crianças, inclusive com aparelhos adaptados.

A partir dos benefícios promovidos pelo treinamento de força e da falta de evidências relacionando o treino com lesões em crianças e adolescentes, devemos evitar o senso comum e nos embasarmos na ciência para a prescrição correta, segura e eficaz desse tipo de treinamento para esta população.

Além do mais estamos falando em cálculos de “dose” de treinamento. A musculação mal dosada pode sim trazer prejuízos para saúde, da mesma forma que você errar na dose e beber água demais, isso também pode te matar!

Se você ficou curioso em como monitorar a “dosagem” de um treinamento, clique aqui e ouça esse podcast!


Referências

LLOYD, R. S.; FAIGENBAUM, A. D.; STONE, M. H.; OLIVER, J. L.; JEFFREYS, I.; MOODY, J. A.; BREWER, C.; PIERCE, K. C.; MCCAMBRIDGE, T. M.; HOWARD, R. Position statement on youth resistance training: the 2014 International Consensus. British journal of sports medicine, p. bjsports-2013-092952, 2013.

 FAIGENBAUM, A. D.; KRAEMER, W. J.; BLIMKIE, C. J.; JEFFREYS, I.; MICHELI, L. J.; NITKA, M.; ROWLAND, T. W. Youth resistance training: updated position statement paper from the national strength and conditioning association. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 23, p. S60-S79, 2009.

MALINA, R. M. Weight training in youth-growth, maturation, and safety: an evidence-based review. Clinical Journal of Sport Medicine, v. 16, n. 6, p. 478-487, 2006.

SOLIGARD, T.; MYKLEBUST, G.; STEFFEN, K.; HOLME, I.; SILVERS, H.; BIZZINI, M.; JUNGE, A.; DVORAK, J.; BAHR, R.; ANDERSEN, T. E. Comprehensive warm-up programme to prevent injuries in young female footballers: cluster randomised controlled trial. BMJ: British Medical Journal, v. 337, 2008.

KERR, Z. Y.; COLLINS, C. L.; COMSTOCK, R. D. Epidemiology of weight training-related injuries presenting to United States emergency departments, 1990 to 2007. The American Journal of Sports Medicine, v. 38, n. 4, p. 765-771, 2010.

  • Raniel Ferreira

    É meio triste como o senso comum ainda é mais forte que o próprio conhecimento científico, infelizmente acredito que quase todas as áreas acadêmicas devem ter esse mesmo problema (pseudociências e empirismos). A única solução que vejo é continuar fazendo divulgação científica acessível, o problema seria passar isso por algum meio de comunicação forte como a mídia, pois mesmo que a mídia influencie as pessoas a fazer atividade física e pensar em saúde, as informações desses programas continuam sendo pouco, e as vezes não são fidedignas.

  • Renato Siviero Vicentini

    Já li em alguns artigos que tem alguns exercícios devem ser evitados como saltos em profundidade. Teria mais algumas limitações ou tudo é permitido se adequar as cargas para o aluno ?