Podemos confiar nos artigos nacionais da área da Educação Física?

Para “tentar” amenizar qualquer possível manifestação polêmica (além do post) eu gostaria de dizer que sei que existem ótimos autores nacionais da Educação Física. Não estou querendo apontar o dedo para um ou dois autores e sim colocar em questionamento a qualidade dos artigos que temos a disposição na nossa língua.

Sou estudante de Educação Física, devo procurar artigos em português ou em inglês?

Se você já é um consumidor de ciência deve ter reparado que existem muito mais artigos sobre um tema em inglês do que em português. Isso acontece porquê a Ciência segue um pressuposto que é a universalização do seu conteúdo e, infelizmente, a linguagem “universal” é o inglês e não o português. Por isso, nossos bons pesquisadores que temos na Educação Física acabam publicando artigos em inglês. Além de conseguirem uma maior visualização, eles tentam buscar revistas mais conceituadas. Isso vale muito para o currículo de um profissional. As revisas internacionais tem muitos critérios para aceitar e publicar um artigo (revistas com alto fator de impacto). No Brasil, muitas revistas de Educação Física que aceitam pesquisas, acabam aceitando trabalhos pobres e quase não utilizam critérios para permitir ou negar artigos submetidos.

Então, respondendo a pergunta, eu diria que se você quer ampliar a quantidade de informações relevantes da área da ciência do treinamento, então deve procurar artigos em inglês! Você pode muito bem encontrar ótimas fontes de informação em português sim, mas isso é (e será) cada vez mais incomum.

Quais critérios devemos considerar para confiar nas informações de um artigo?

Existem várias maneiras de se ler um artigo e destacar pontos que podem aumentar ou diminuir sua qualidade. Por isso que sempre comento em cursos que um bom pesquisador e/ou profissional da saúde nunca deve perder seu senso crítico. Aliás, eu penso que a estimulação de uma mente crítica deveria ser feita desde a infância!

Dentre os critérios que não vou citar aqui eu quero destacar a importância da análise estatística em um artigo. Quando realizamos uma coleta de dados para responder uma pergunta, esses dados precisam ser “tratados” da forma correta para poder nos trazer confiança na hora de publicar os resultados (respostas). Eles precisam ser confiáveis pois, outras pessoas irão ler e principalmente reproduzir aquele conhecimento em suas vidas profissionais.

Não podemos esquecer que existem vários tipos de artigos, em alguns casos temos artigos de revisão bibliográfica onde serão levantadas questões e sintetizadas informações a respeito de uma vasta literatura. Mesmo assim existem as revisões sistemáticas com estatística (chamadas meta-análise). Porém, quando se tratam de ensaios clínicos a história é outra…

Qual o problema de um artigo sem análise estatística na educação física?

O grande problema na Educação Física (e em qualquer área da saúde) é que muitos artigos vem sem análise estatística, porém eles sempre vem com uma conclusão! A grande pergunta que fica é: como vou concluir alguma coisa se não busquei respostas nos meus dados coletados?

Em um artigo publicado em março de 2015 na Revista Brasileira de Educação Física e Esporte , foi analisado o uso da estatística na Educação Física entre os anos de 2009 e 2011 (o link para o artigo está no final do post). Nesse artigo vemos que de todos os 872 artigos analisados em 5 periódicos nacionais, 46,3% dos artigos não realizou nenhum tipo de análise estatística!

Na figura abaixo podemos ver o nome dos periódicos e a proporção de artigos sem análise estatística (barra clara), artigos com apenas a estatística descritiva (barra cinza pontilhada) e artigos com utilização de tratamentos estatísticos variados (barra cinza lisa).

O interessante é que o artigo cita que o número de pesquisas publicadas na área de Educação Física vem aumentando com o tempo. Porém as publicações em revistas de alto impacto internacional caiu de 0,05% ( em 1996) para 0,04% (em 2000). Isso nos leva a uma outra discussão que é a péssima qualidade na formação em pós graduações (lato e stricto sensu) nacionais.

Gostou dessa conversa? Então clique aqui e ouça uma fantástica entrevista com um cientista brasileiro de referência sobre a qualidade da ciência nacional!

Mas eu sou profissional de Educação Física, não estatístico, como vou avaliar a qualidade de um artigo?

Estudando meu amigo…

Tenho certeza que quando você vai em um médico e ele te prescreve um medicamento, você vai querer que esse profissional entenda de estatística para poder se assegurar dos riscos e benefícios daquele tratamento. Com Educação Física é igual! Quando você vai fazer uma intervenção na saúde de uma pessoa (não se esqueça da palavra SAÚDE) você também tem que entender de estatística para poder trabalhar com segurança e não enganar seus clientes / alunos.

Não estou falando que você precisa saber fazer as análises estatísticas na ponta do lápis, porém você precisa entender os conceitos básicos para poder ter um senso crítico ao consumir ciência. Essa é uma questão que fica a critério de cada profissional, estudar e ser crítico ou ter “fé” no que está lendo.

Se você tem dúvidas de onde procurar informações relevantes na área da Educação Física, então clique aqui e ouça esse podcast!

Para você que se interessou no assunto e viu a importância desse tema eu indico um milhão de vezes o livro:

THOMAS, Jerry R.; NELSON, Jack K.; SILVERMAN, Stephen J. Métodos de pesquisa em atividade física. Artmed, 2012.

Educação Física

Referência

TEIXEIRA, Inaian Pignatti et al. Uso da estatística na Educação Física: análise das publicações nacionais entre os anos de 2009 e 2011. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 29, n. 1, p. 139-147, 2015.

  • Marco Machado

    Rápido no gatilho!

  • Fabio Rocha de Lima

    Fala Mestre!

    Que devemos saber o conceito do tratamento estatístico para boa compreensão dos artigos, isso não tenho dúvidas, mas uma coisa que vejo acontecer em diversas instituições de ensino superior (pública e particular) que não concordo, é que a disciplina de bioestatística é oferecida quase no final da graduação, e acredito que o adequado seria oferecer no incio do processo (ou no segundo semestre), pois considero o tópico de tratamento estatístico um dos pontos mais importantes do artigo. Outra coisa que é um assunto um tanto quanto delicado, é a Ética no tratamento dos dados coletados (aqui que os erros podem ser mascarados…rsrs…).

    Acredito que outra forma de ler os artigos, é tentar estabelecer as relações entre os conteúdos para enriquecer mais as discussões, e claro, nunca fechar os olhos para um único estudo.

    Parabéns pelo post

    Abraços

    • Yuri Motoyama

      Perfeito Fábio. Ontem estava em um curso e levantei essa questão. Um educador físico precisa entender estatística?

      Algumas pessoas torceram o nariz, mas no meu ponto de vista essa disciplina deve ser ESSENCIAL para qualquer curso da área da saúde. Afinal, não precisamos desse conhecimento para avaliar o que pode ser utilizado na nossa prática diária ou não? Abraço mestre!

  • Marcos

    Amigo, devemos considerar que a Educação Física é área de intervenção que utiliza pressupostos científicos (assim como filosóficos também). Ela por si só, não é ciência, como a química, biologia. Nós, da EF temos problemas de intervenção que pouco são investigados. Não vemos pesquisas que investigam o mercado de trabalho do professor de academia. Não vemos pesquisas que tentam descrever e analisar os saberes profissionais necessários do professor de EF na área do Bacharel.
    Todas essas pesquisas, que vc diz que merecem tratamento estatístico só comprovam coisas relacionadas a legitimação da EF- ou seja, os “porquês” de praticar exercício físico: Diminui pressão arterial? Melhora angiogenese? Remove radicais livres? Mas na minha opinião, faltam pesquisas que estudem a intervenção – “os comos” (como evitar evasão de obesos à atividade física? como treinar idosos? como dar um treino de futebol para crianças na escola sem que se exclua meninas e os menos habilidosos?

    Isso sim que é EF!! Área de intervenção que se utiliza da ciência.

    Toda essa baboseira que eu falei é para que? Pra te dizer que a analise estatística é só um método para ler a realidade. Os números não dizem por si só, é preciso dar vida a eles, colocar a luz de critérios, de interpretação.

    O desenho, o problema e a problemática do estudo que vai te dizer se precisa de um tratamento estatístico ou não.

    No atual momento, a EF que não estuda EF, mas sim fisiologia, biologia, biomecânica, etc precisam de analise de dados estatísticos pq seus modelos e procedimentos de pesquisa são importadas de suas ciências mães. Nós não temos modelos metodológicos próprios, mas só esses hierarquizados pelas ciências mães.

    Quero ver agora estudar o reais problemas da área!! Nem sempre vai estatística amigo. Diga as enfermeiras que fazem pesquisas qualitativas que não tem validade o que elas escrevem. Diga aos sociológocos que suas pesquisas sem analise estatística não possuem validade epistemológica. Diga aos historiadores que a análise de documentos e pinturas do Egito não tem validade pq não tem analise estatística.

    É tudo questão de desenho metodológico. Novamente, os números não falam por si só.

    • Yuri Motoyama

      Fantástico Marcos!!! Adorei a sua contribuição na discussão da postagem! Acho que esse é um dos momentos que me fazem não desistir do blog: as boas discussões! Entendi sim o seu apontamento e ele faz todo o sentido. Sabe que eu também me pergunto até que ponto a EF poderia ser considerada uma ciência ou não. Nesse sentido que você falou que ela é uma “filha” das ciências “mães” eu concordo. Arriscaria dizer aqui que você deve ter uma grande experiência na área da educação pelo seu raciocínio.

      Eu sempre me envolvi com a área da saúde mais voltada às ciências biológicas e para mim cada artigo que sai responde sim uma parte dessas questões que levantou. Um artigo sobre osteoporose e exercícios me diz muito sobre como eu vou eu vou treinar um idoso, aqui no laboratório que pesquiso tem um grupo que está em um delineamento para ver como reduzir a evasão de obesos no treinamento e até o lance da exclusão eu penso que deveríamos fazer modelos experimentais de tipos de aulas e ver qual tem a melhor aderência. Não consigo ver esses resultados aplicados a prática sem qualquer tratamento estatístico. Agora o ponto que falou sobre a interpretação de dados e um delineamento de pesquisa inteligente é o salto que revolucionaria a ciência novamente caso isso fosse amplamente disseminado no meio científico.

      Também concordo que os números não dizem nada, o estatístico do nosso grupo sempre diz que o software de análise estatística é burro. Ele aceita e realiza qualquer tarefa. Já cansei de ver trabalhos que explicam causa e efeito com correlação, por exemplo, eu já fiz isso. Hoje sabemos que existem correlações espúrias e um simples teste de Pearson não vai me responder isso. Assim como o valor P isoladamente não me fala se um tratamento é melhor que o outro. Também acho que com o tempo vamos desenvolvendo métodos próprios para responder perguntas, mas isso eu acho que pode ser muito importado de outras áreas como vem sendo feito.

      Com relação aos problemas reais da área eu não sei qual sua definição de problemas reais de acordo com o que você vive da EF. Para mim um problema real é compreender dose-resposta de treinamento por exemplo e isso precisa e muito de estatística. Nunca também me atreveria dizer que as pesquisas qualitativas não tem validade, tanto que elas também tem procedimentos específicos para tratar seus dados. Enfim, como estamos falando de ciência tudo tem que ter um método e na nossa área de promoção de saúde (como é o foco do texto) ainda estamos engatinhando por ignorar um tratamento adequado dos dados.

      Realmente quando escrevi o texto não estava pensando nessas outras áreas que mencionou. Estava apontando um problema que vejo em nós profissionais de EF com relação ao consumo de ciência. Inclusive minha esposa é psicóloga e na área dela existem muitos trabalhos de linhas da psicologia que não tem muitos “números”. Mas você está correto, trabalhos com características de descrever ou documentar um evento não teria sentido a estatística.

      Muito agradecido pelo comentário Marcos e escreva sempre que quiser por aqui!!! Abração