Por que uma pessoa se cansa em um exercício com intensidade correspondente a máxima fase estável de lactato?

Por Yuri Motoyama

Um dos pontos que inflama minha curiosidade com relação a fisiologia do exercício é a fadiga muscular. Se procurar aqui pelo site existem várias postagens sobre esse tema. Existem modelos tradicionais que explicam a fadiga por mecanismos “centrais” (coração) e mecanismos periféricos (musculatura). A literatura científica contemporânea já coloca um ingrediente nessa mistura que é a ação do sistema nervoso central no aparecimento da fadiga. Então, atualmente a palavra mecanismo central de fadiga está relacionada ao sistema nervoso central e fadiga periférica está relacionada a todo o restante (musculatura, concentração de lactato, sistema circulatório, densidade mitocondrial, etc).

Se você ainda tem dúvidas sobre a diferença entre “ácido lático” e lactato clique aqui e leia esse post!

Máxima Fase Estável de Lactato (MFEL) e fadiga

A máxima fase estável de lactato é um indicador fisiológico bem interessante. “Teoricamente” um exercício com sua intensidade estabilizada pela MFEL teria que ser realizado por tempo indeterminado. Imagine a produção de energia vinda do metabolismo da glicose, sabemos que quando a intensidade da atividade está acima do segundo ponto de transição metabólica (famoso L2) a atividade está no domínio pesado e consequentemente (se houver incremento) domínio severo. Nessa situação, se observarmos o comportamento do lactato na corrente sanguínea, ele aumentaria constantemente caso a intensidade continue a mesma.

Agora se realizássemos essa mesma atividade exatamente no segundo ponto de transição metabólica (que estamos chamando de máxima fase estável de lactato) observaríamos a produção de lactato, porém com uma taxa de remoção equivalente. Então, teríamos uma atividade com uma intensidade máxima (sem entrar no domínio pesado) metabolicamente estável. Por isso que eu utilizei a palavra “teoricamente” para definir que nesse ponto a fadiga não poderia ocorrer por conta da intensidade, pelo aumento da acidose ou por fatores recorrentes ao metabolismo.

O que limitaria um exercício na máxima fase estável de lactato

Imaginando que estamos considerando uma intensidade metabolicamente estável, fica a pergunta: qual fator poderia interromper uma atividade nessas condições? E antes que você levante a questão sobre os estoques de substratos energéticos, os autores apontaram em uma outra revisão que no momento que ocorre a fadiga os estoques de ATP e glicogênio estão preservados em torno de 50 a 60%.

Dessa forma, os autores do trabalho que estou comentando nesse post propuseram a seguinte condição experimental. Realizaram um exercício incremental máximo e, em outra condição, um exercício na MFEL até a exaustão voluntária dos participantes. Veja os resultados dos testes máximos:

lactato fig 1

Agora vamos pensar nos testes realizados na máxima fase de lactato, os participantes se exercitaram em média 55 minutos (desvio padrão de 8,5 min). Eles interromperam o teste com a frequência cardíaca final de 175 BPM; o VO2 2,8913 l/min; o VCO2 2,7586 l/min; o quociente respiratório 0,97; e a ventilação 85,4 l/min. Compare esses valores com os resultados dos testes máximos acima. Eles poderiam ter ido mais longe não?

Agora dê uma olhada nos outros resultados do teste da MFEL:

lactato fig 2

Conclusão

Podemos parar para pensar em muitos aspectos sobre esse artigo. Como eu costumo classificar, um artigo bom é aquele que levanta mais questionamentos do que explicações. Podemos ver que nenhum fator analisado poderia explicar a fadiga, a não ser o aumento da concentração de amônia que foi um ponto que ficou aberto em discussão no artigo. Acho esse artigo um exercício para pensarmos em quais pontos poderiam explicar a fadiga, como poderíamos montar um delineamento ou observar uma variável para explicar esse fenômeno. Sabemos que a fadiga é multifatorial e seu estudo complica ainda mais pelo fato de termos um forte componente central a controlando. Convido vocês a lerem o artigo completo e deixarem aqui nos comentários sua opinião.

Se você se interessou pelo conceito de fadiga explicado pela interação do corpo com o sistema nervoso central clique aqui e leia esse post!
Se quiser ouvir um podcast sobre mecanismos de fadiga clique aqui.


Referência

BARON, Bertrand et al. Why does exercise terminate at the maximal lactate steady state intensity?. British journal of sports medicine, v. 42, n. 10, p. 828-833, 2008.

  • Fabio Rocha de Lima

    Fala mestre, voltei…rsrs…

    Parabéns pelo texto!

    Realizei a leitura do artigo e tenho alguns pontos para destacar:

    1 – A amostra ser composta por indivíduos altamente treinados, podendo os mesmos já terem mecanismos bem desenvolvidos, que poderiam postergar a fadiga;

    2 – Me chamou atenção os autores não terem apresentado alguns dados referente aos períodos T40, T50, T60, T70, T80 e T90. Principalmente os dados metabólicos. Isso nos permitiria analisar o comportamento dos sujeitos ao longo do teste;

    3- Se verificarmos na tabela 2, é possível identificar uma “tendência” a diminuição de HCO3-, um substrato que envolve o tamponamento de íons de H+;

    4- Os autores obtiveram diferenças significativas para o pH no período T20 e Tend, identificando assim uma possível acidose metabólica nos sujeitos, confirmando em parte o ponto “3”;

    5- De fato a concentração de amônia no Tend chama bastante atenção;

    6- Senti falta com relação à comparação de resultados referentes a fração expirada de O2 e CO2 (FEO2 e FECO2) e VO2 e CO2, pois poderíamos identificar se a “tendência” do HCO3- se confirmaria ao longo do teste, identificando ou não uma fadiga por causa periférica;

    7- Teria o artigo de revisão que você citou nesse trecho ” momento que ocorre a fadiga os estoques de ATP e glicogênio estão preservados em torno de 50 a 60%.”?

    No geral, achei o artigo bem interessante!

    Quando for escrever algum post sobre fadiga na fanpage, colocarei esse seu texto em “leituras sugeridas” 🙂 !

    Abraços meu amigo!

    • Yuri Motoyama

      Fala mestre!!! Está sumido mesmo hein? Não pode sumir não…rs
      Bons questionamentos que você mandou. O que eu penso a respeito que você escreveu:
      1) Isso é realmente verdadeiro, atletas tem uma resistência maior a fadiga mesmo, porém esse fator não inviabiliza o questionamento do estudo já que estamos comparando atletas com atletas. Acho que se fossemos comparar atletas e sedentários aí sim isso poderia ser um viés do estudo.

      2) Eles não colocaram os pontos referentes do T40 ao T90 por conta do teste para identificar a máxima fase estável de lactato que segue esse protocolo. No teste se em um exercício de carga constante não houver aumento do lactato maior que 1 mmol.L entre os minutos 10 e 30, o indivíduo está em equilíbrio entre a produção e remoção do lactato. Esse teste mostra que os dados foram estáveis (principalmente a lactatemia) durante o teste todo. Por isso que ele mostra os 30 primeiros minutos e depois o tempo final.

      3) Nesse ponto eu acho o desvio padrão está muito alto para poder explicar uma alcalose promovida pelo tamponamento. E isso deveria ter aumentado a produção de CO2 durante o teste, o que não aconteceu.

      4)Eu também fiquei curioso para ver se esse dado seria um fator limitante. Se tivéssemos o valor do pH no teste incremental poderíamos comparar com esse para ver se ele explicaria a fadiga. Mas tenho lá minhas dúvidas se um aumento de 0,05 no pH poderia levar o sujeito a fadiga nesse caso.

      Vamos fritando!!!
      Abraço mestre!

      • Fabio Rocha de Lima

        Semestre corrido na faculdade e no laboratório como de costume…rsrs… Agora com as férias, ficarei mais tranquilo!

        Realmente, se os autores tivessem dados referente ao ph do teste incremental abriria mais ainda os questionamentos. Outra coisa que seria interessante, se eles tivessem mostrado os dados obtidos ao longo do teste incremental, principalmente o de CO2.

        Abraços Mestre!