Quero ganhar massa muscular: a cerveja interfere ou não?

Por Yuri Motoyama

Já vi inúmeras vezes alunos que entram na academia e durante as festas de confraternização começar a trocar as latas de cerveja pelo suco. Ou quando você tem um amigo que sempre sai contigo para tomar uma cervejinha e da noite para o dia ele fala “vou dar uma paradinha por um tempo”. Já sabe né? Vai ser alvo de piadas durante um bom tempo…

Mas esse cara está certo ou é um excesso de caretice da parte dele?

Em uma revisão publicada no periódico Nutrition & Metabolism no dia 6 de junho de 2014, foram analisados 106 estudos sobre consumo de álcool e sua relação com alterações hormonais e a hipertrofia. Vou separar alguns pontos do artigo para reflexão (sóbria).

Sabemos que os hormônios têm funções variadas no corpo, de modo geral eles viabilizam a comunicação entre tecidos podendo intermediar a produção, utilização e estoque de energia; reprodução; manutenção da homeostase e o crescimento (síntese proteica) celular. A literatura já mostra que a ingestão de álcool (etanol) pode prejudicar a liberação de hormônios e seus tecidos alvos, causando consequências médicas. Por exemplo, a ingestão de etanol afeta vários aspectos relativos ao metabolismo e estocagem da glicose. Sabendo que a disponibilidade de glicose é relacionada com a síntese de proteínas, logo vemos uma consequência negativa para o metabolismo.

Sabemos que o músculo esquelético é um tecido altamente adaptável e capaz de alterar a sua quantidade de proteína em resposta a desvios na homeostase celular. Durante um processo hipertrófico, de forma geral, temos dois pontos a serem considerados: o primeiro é o aumento da síntese proteica e o segundo é a redução da sua taxa de degradação. O que chamamos de anabolismo ou catabolismo é o balanço final dessa equação.

etanolExistem complexas vias de sinalização celular relacionadas à hipertrofia e muito tem se estudado sobre essas vias. Na figura em anexo vemos um quadro que descreve uma parte desses processos. Vemos que o lado esquerdo das reações levam ao anabolismo e o lado direito das reações ao catabolismo. O do processo da via de sinalização PKB (proteína quinase B)/Akt (serina/treonina quinase) à mTOR (proteína alvo da rapamicina em mamíferos) é prejudicado pelo etanol na etapa onde ocorre a hiperfosforilação da S6K, assim retardando a tradução do RNA  de proteínas ribossimais (complicou? Coloquei o nome das siglas para quem quiser pesquisar mais em português).  O etanol e seus produtos metabólicos secundários afetam diretamente a síntese proteica no musculo esquelético, principalmente as fibras do tipo IIx que sabemos que são as mais responsivas a hipertrofia.

Existe um decréscimo de 15 a 20% na síntese proteica basal observado em um período até 24h da intoxicação por etanol.  Outro ponto a ser observado é o aumento das concentrações de miostatina após 16 semanas de consumo crônico de álcool, lembrando que a miostatina é um fator de crescimento que ativam fatores de transcrição que vão levar ao catabolismo.

A relação do etanol com a secreção hormonal é bem evidente. O etanol reduz as concentrações de GH (hormônio do crescimento) e a liberação do hormônio luteinizante. Os subprodutos do etanol apresentam uma relação com o aumento dos níveis de cortisol de forma a alterar o equilíbrio catabólico / anabólico. Um dado curioso desse trabalho é a relação com a testosterona, que parece ser dose dependente. A maior parte dos estudos utilizou uma baixa dosagem de etanol (menores que 1,5 g/kg) resultando em um aumento nos níveis de testosterona circulantes. Curiosamente, todos estudos que utilizaram altas dosagens (maiores que 1,5 g/kg) apresentaram uma redução nas concentrações de testosterona (maiores evidências em mulheres).  Assumindo que uma caneca de cerveja (de 355 ml) tem uma quantidade de álcool 4,5 a 6% para uma pessoa de 70 kg, a dosagem utilizada como medida nos estudos corresponderia a 5 ou 6 canecas de cerveja. Moleza atingir a alta dosagem não? (rs)

Os estudos também mostraram que não existem diferenças nesses resultados quando comparam adolescentes e adultos (como eles embeberam os adolescentes para as pesquisas?!).

Mas o mais importante desse post é: SE BEBER NÃO DIRIJA! (rs)

Referência

Bianco A., et al. “Alcohol consumption and hormonal alterations related to muscle hypertrophy: a review.” Nutr Metab (Lond). 2014 Jun 6;11:26

  • Yuri Motoyama

    ok