Sabia que seu exercício pode ser influenciado se você estiver sendo observado por um homem ou por uma mulher?

Por Yuri Motoyama

É isso mesmo que você leu! Se durante um exercício, você for observado por um homem ou por uma mulher isso pode provocar alterações na forma como você percebe o esforço daquela atividade. Para observar o efeito do sexo do observador em uma atividade física, os pesquisadores da Universidade de Northumbria no Reino Unido realizaram uma pesquisa no mínimo curiosa.

O que fazer para “observar” o efeito do sexo do observador em um exercício?

Para realização da pesquisa, em primeiro lugar foi necessário definir o tipo de participante. Acredita-se que os homens podem ser influenciados de forma diferente das mulheres quando são observados por uma pessoa do mesmo sexo e outra do sexo oposto. Para isso foram recrutados 10 homens fisicamente ativos e dois observadores, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. Para que houvesse uma influência maior da presença do observador na sala, os pesquisadores fizeram uma pesquisa na universidade e selecionaram o homem e a mulher mais atraentes.

A pesquisa foi conduzida de forma cega para os participantes, ou seja, os 10 homens não sabiam qual era a real natureza do estudo. Eles só foram informados do verdadeiro objetivo do estudo no final do experimento.

Protocolo de exercício e delineamento do estudo

Os participantes correram por 20 minutos com a velocidade ajustada a 60% de sua velocidade máxima na esteira (avaliada previamente). Foram realizadas 3 condições experimentais, com o observador homem, com a observadora mulher e uma condição controle onde só havia a pesquisadora no laboratório (ela estava presente em todas as condições). Nos minutos 6, 12 e 18 do teste eles tinham que responder a dois questionários:

  • Percepção subjetiva de esforço: escala utilizada em pesquisas para quantificar “como” o participante está percebendo o esforço  físico durante o exercício. Ela vai de 6 a 20 pontos sendo que 7 é “muito, muito fácil” e 19 e “muito, muito difícil”.
  • Escala de afeto: escala utilizada para avaliar como o participante se sentia afetivamente. Essa avaliação era para observar a sensação de prazer ou bem estar da atividade de forma a não avaliar a parte física. Essa escala está entre +5 “muito bem”, 0 “neutro” e -5 “muito mal”.

Durante os 20 minutos de corrida, incialmente estava presente no laboratório apenas a pesquisadora (mulher) e ela ia conduzindo o experimento de forma padronizada em ambas condições (observador homem, observador mulher e controle). Era combinado para os observadores entrarem no laboratório no momento que o teste estivesse com 10 minutos. Os observadores também seguiam um padrão de comportamento quando dentro da sala, seguindo todo um procedimento de conversa e posicionamento para que não houvesse nenhuma diferença adicional a não ser a presença masculina ou feminina.

Resultados da pesquisa

Como podemos observar no gráfico abaixo, a presença feminina diminuiu a forma como os participantes perceberam o esforço. Com relação a escala de afeto, a presença feminina teve uma pontuação maior comparada com a condição controle indicando um efeito positivo na forma como eles se sentiam “emocionalmente”.

exercicio rpe

exercicio affect

Conclusão

Quando li esse estudo também fiquei pensando “o que isso tem a ver com a prática no treinamento?”. Depois de um tempo eu vi algumas aplicações interessantes que podemos considerar na prática da atividade física. A principal seria no âmbito da pesquisa, a percepção subjetiva de esforço é uma variável muito utilizada por pesquisadores e é uma forma para podermos avaliar como o participante está percebendo o esforço. Apesar de ser uma forma subjetiva de avaliação é um dado que não pode ser desconsiderado principalmente quando se estuda fadiga e performance. Em alguns estudos a manipulação da percepção de esforço melhorou o desempenho. Então, se você trabalha com pesquisa e quer ter um ambiente controlado também precisa considerar a presença de pessoas dentro do laboratório.

Esse é um artigo que aborda um modelo de fadiga chamado “Governador Central” se você quer ouvir um programa sobre modelos de fadiga clique aqui.

Agora eu me pergunto, será que se seu aluno de personal (ou você mesmo) quando está correndo na esteira e aparece a aluna(o) mais “cobiçado” da academia na esteira do lado. Aquela presença, não poderia interferir no desempenho?

Outra dúvida que me veio a cabeça e não foi avaliada seria se os voluntários fossem mulheres. Será que as mulheres teriam sua percepção de esforço e escala de afeto afetada de forma diferente?

Um artigo bem curioso…


Referência

WINCHESTER, Rachel et al. Observer effects on the rating of perceived exertion and affect during exercise in recreationally active males 1, 2.Perceptual & Motor Skills, v. 115, n. 1, p. 213-227, 2012.