Shakes para emagrecimento: bom para quem compra ou para quem vende? – Parte 3

Por Jean Silvestre

Olá Pessoal!

Saindo do forno mais um post sobre uso de shakes para emagrecimento! Agora que já sabemos alguns malefícios que os shakes acarretam (para você que ainda não leu, corre lá que dá tempo – post 1 e post 2), vamos entender o processo de déficit energético diário para perda de gordura corporal ok?!
Voltemos à nossa participante ilustre do post: a Mariazinha!!

Mariazinha iniciou o uso dos shakes milagrosos, substituiu duas refeições “principais” e seu consumo energético, que antes era de 2000 kcal, agora está em 1220 kcal (Lembram da diminuição de 780 kcal diárias no post 2?), isso lhe confere um déficit energético diário de 780 kcal (Uma quantidade exacerbada!!). Mas o que a junção alimentação restrita em calorias e refeições líquidas acarretam? Quando nós nutricionistas falamos que “um alimento não é somente um alimento”, não estamos dizendo isso da boca para fora. Um exemplo disso é a sinalização de saciedade que as refeições geram em nosso organismo.

Para entender todo esse processo, vamos olhar a figura abaixo.

shakes para emagrecimento 1

A relação saciedade/fome é regulada por alguns hormônios, dentre eles vamos destacar a leptina e grelina com papéis importantes no processo. O primeiro é secretado pelo tecido adiposo ao longo do dia e em maiores concentrações gera o processo de saciedade nos indivíduos. Já o segundo é secretado pelo estômago quando o mesmo encontra-se sem maiores distensões gástricas (falta de alimentos) e gera o processo de fome. Então reparem que temos diferentes sinalizações para o controle alimentar, algumas vão gerar o processo de saciedade outras, o processo de fome.

Um detalhe importante aqui é que temos sinalizações a curto e longo prazo, por exemplo: a sinalização de leptina pelo tecido adiposo ocorre em longo prazo. Basicamente o tecido adiposo quanto maior for, mais vai sinalizar em direção da saciedade (sem contar a resistência a leptina em indivíduos obesos que não está tão consolidado na literatura ok?) e a sinalização de grelina é mediada pela distensão estomacal (basicamente quando realizamos uma refeição com grande quantidades de alimentos temos a inibição de grelina e, consequentemente, uma menor sinalização para o processo de fome).

Se você gosta de nutrição e quer se manter atualizado clique aqui e ouça a participação do nutricionista Jean Silvestre no episódio DNA explicando o Tribulus e sua suplementação!

Então pensando na influência da refeição no estômago, o ideal seria o alimento sinalizar o maior tempo possível para a saciedade, certo?! Mas quando Mariazinha substitui as duas refeições sólidas pela líquida não vimos no post 2 que o tempo de esvaziamento gástrico é mais rápido? Oras, se esvazia rapidamente, consequentemente eu tenho uma sensação de fome MAIS RÁPIDA em relação à refeição sólida, resultado? A Mariazinha vai sentir fome e ingerir alimentos a mais que o programado (consumo calórico maior que o programado). Esta é uma das sinalizações que ocorre durante o processo de esvaziamento gástrico, agora vamos entender a relação tecido adiposo e saciedade.

Lembram que eu relatei que o tecido adiposo gera a secreção de leptina? Exatamente! Conforme a Mariazinha tem uma perda de peso, seu tecido adiposo diminui e consequentemente a secreção de leptina, e lembram o que ocorre? Menor sinalização para o processo de saciedade!! (E olha que isso é apenas um tipo de sinalização ?!) Entenderam o motivo de ser tão difícil tratar o sobrepeso/obesidade?! (1, 2 e 3).

Agora imaginem a confusão que fica no processo de saciedade com a junção de refeição sólida e perda de peso!! (Isto já explica bastante as dificuldades em aderir ao “tratamento milagroso” dos shakes).

Mas não acaba por ai! Em 2008, um grupo de pesquisadores de Seattle (EUA) tiveram a seguinte sacada: Se após os indivíduos perderem peso nós liberarmos os mesmos para voltar a dieta habitual, quanto tempo demora para restabelecer as concentrações endógenas de leptina? E concluíram que após 14 dias de 30% de restrição calórica a concentração de leptina diminui em cerca de 40 e 30% para indivíduos adultos e idosos, respectivamente, e o mais impressionante, após 28 dias de dieta habitual a concentração de leptina se reestabeleceu! Isso significa que ter uma perda de peso rápida não surte efeito! Visto que junto com a diminuição de peso, também temos diminuição da sinalização de saciedade!! (4)

Se nós lutamos tanto diariamente para os indivíduos ficarem saciados e não atacar a geladeira, qual a vantagem de diminuir essa sinalização?

Já deu para perceber que nutrição é muito mais que uma simples contagem de calorias! No próximo post (último) iremos analisar os efeitos colaterais dos shakes milagrosos.

Até a próxima pessoal!

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REFERÊNCIAS

1 – GRECO, M. et al. Early effects of a hypocaloric, mediterranean diet on laboratory parameters in obese individuals. Mediators of Inflammation, ID 750860 , 8 pág, 2014.

2 – LECOULTRE, V. et al. The fall in leptin concentration is a major determinante of the metabolic adaptation induced by caloric restriction independently of the changes in leptin circadian rhythms. The Journal of clinical endocrinology & metabolism, v. 96, n. 9, p. 1512-6, 2011.

3 – ROSENBAUM, M.; LEIBEI, R. L. Role of leptin in energy homeostasis in humans. J Endocrinol, v. 223, n. 1, p. T83-96, 2014.

4 – YUKAWA, M. et al. Leptin levels recover normally in healthy older adults after acute diet-induced weight loss. J Nutr Health Aging, v. 12, n. 9, p. 652-6, 2008.