Suplemento de lactato! Será que vai virar moda?

Por Jean Silvestre

A fadiga muscular é algo que realmente incomoda atletas, principalmente quando tratamos de esportes que contam com sprints de alta intensidade.
A procura por suplementos ergogênicos para retardar tal fadiga e, consequentemente, aumentar o desempenho do atleta é incessante. Não tão popular no Brasil, a marca Sportlegs trabalha com a suplementação de lactato como recurso ergogênico.

Qual a relação do lactato com a fadiga?

Dentre muitas, uma das causas da fadiga muscular é o acúmulo de metabólitos, especialmente os íons H+, isso ocorre na medida em que aumentamos a intensidade do exercício.

Ok Jean, mas como?!

Vamos lá… quando você está se exercitando, a primeira fonte energética é o sistema creatina-fosfato, onde serão fornecidos grupamentos fosfatos para a contração muscular. Porém na medida em que você aumenta a intensidade do exercício você consequentemente vai utilizando o glicogênio muscular e hepático para fornecimento de energia, entretanto, esse fornecimento de energia acaba gerando uma concentração alta de lactato. Nessa via, (através dessa intensidade) a degradação de glicose resultam em lactato. Substrato esse que por muitos anos foi o “vilão”, acreditava-se que a formação de lactato era responsável pela fadiga muscular. Hoje já sabemos que o “vilão” é o acúmulo de íons H+ intracelular, prejudicando a ressíntese de fosfocreatina, fluxo glicolítico e até mesmo o processo de contração muscular. (1, 2)

Nesse sentido, qual a lógica da suplementação de lactato?

A lógica é a utilização do lactato como fonte de energia através da oxidação do mesmo ou conversão desse substrato em glicose, assim, consumindo íons H+  e poupando o bicarbonato sanguíneo (HCO3-). Isso tudo resultando em um aumento do tamponamento extracelular e aumentando o tempo de fadiga muscular. Genial, não?! Mas parece que não é exatamente o que dizem as evidências…

Peveler e Palmer (3), analisaram o efeito de 21,5 mg.kg-1 de peso corporal da suplementação de lactato sobre uma prova contrarrelógio (20km) em cicloergômetro. O suplemento testado, por sua vez foi o de um fabricante que alega ter resultados promissores com a dose citada (SportLegs, Sport Specifics, Inc.). As duas sessões de 20 km foram realizadas 60 minutos após a ingestão do suplemento ou placebo. Resultados: Os autores não encontraram diferenças significativas no tempo de prova, frequência cardíaca e tempo de prova, no qual da indícios de que a suplementação não surtiu efeitos nos 20 km.

Já em 2013, Northgraves e colaboradores (4) se propuseram a investigar os efeitos do mesmo suplemento, porém em uma prova de 40 km contrarrelógio! E adivinha? Os autores não encontraram efeitos positivos nem no desempenho e nem sobre as variáveis sanguíneas.

Se você gostou do tema e quer saber mais sobre lactato, clique aqui e ouça esse podcast!

E agora? Suplementar lactato ou não?

A suplementação de lactato PARECE ter um efeito promissor no que diz respeito ao efeito tamponante em exercícios de alta intensidade e curta duração.  Dois estudos deixaram isso bem claro: Morris et al (5) e De Salles Painelli et al (6) após utilizarem exercícios de alta intensidade por um curto tempo e observarem AUMENTO do bicarbonato sanguíneo em comparação ao placebo.

O que fica para nós? Por enquanto esperar evidências mais consistentes para então elucidar sobre o efeito da suplementação de lactato no desempenho. Enquanto as evidências não surgem, faça pelo menos o básico para ter um grande desempenho: Alimentação Saudável e Equilibrada/Treinamento/Descanso. Por incrível que pareça, essa combinação da resultado para muita gente!!
Até a próxima pessoal!!


Referências

Spriet LL, Lindinger MI, McKelvie RS, Heigenhauser GJ, Jones NL. Muscle glycogenolysis and H+ concentration during maximal intermittent cycling. J Appl Physiol, 1989;66(1):8-13.

Robergs RA, Ghiasvand F, Parker D. Biochemistry of exercise-induced metabolic acidosis. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol, 2004;287(3):502-516.

Preveler WW, Palmer TG. Effect of magnesium lactate dihydrate and calcium lactate monohydrate on 20-km cycling time trial performance. J Strength Cond Res, 2012;26(4):1149-1153.

Northgraves MJ, Peart DJ, Jordan C, Vince RV. Effect of lactate supplementation and sodium bicarbonate on 40 km cycling time trial performance. J Strength Cond Res, 2013 [Epub ahead of print].

Morris DM, Shafer RS, Fairbrother KR, Woodall MW. Effects of lactate consumption on blood bicarbonate levels and performance during high-intensity exercise. Int J Sport Nutr Exerc Metab, 2011;21(4):311-317.

De Salles Painelli V, Silva RP, Oliveira Jr OM, Oliveira LF, Benatti FB, Rabelo T, França Guilherme JPL, Lancha Jr AH, Artioli GG. The effects of two different doses of calcium lactate on blood pH, bicarbonate, and repeated high-intensity exercise performance. Int J Sport Nutr Exerc Metab, in press.

  • yuii

    A suplementação com lactato, na minha opinião, não serviria para nada além de servir como substrato para a gliconeogênese. Já que o lactato é um produto final da via anaeróbia lática, o aumento na concentração de íons hidrogênio e a falta de oxigênio faz com que esses íons de hidrogênio sejam ligados ao piruvato, formado pelo glicólise, formando assim o lactato. Se a ideia é diminuir a concentração de íons de hidrogênio o mais coerente seria suplementar com o precursor (piruvato) e não com o produto final (lactato).

    • Yuri Motoyama

      Fala amigo! Um ponto que não podemos desconsiderar é o tipo de fibra e a via de produção de energia predominante na atividade em questão. A proposta da suplementação de lactato é uma estratégia para atividades aeróbias de longa duração. Nesse caso acredito ser viável a utilização de lactato para produção de energia. Tem alguns pontos que você comentou que eu não tenho tanta certeza: 1) alguns artigos mostram que o lactato não é somente um produto da via aneróbia; 2) Existem transportadores de monocarboxilato (isoforma 1) na membrana mitocondrial que parecem entrar com o lactato dentro da mitocôndria e lá reverter ele para piruvato, dar entrada no ciclo do ácido cítrico e ainda reduzir NAD+ com direcionamento para a cadeia de transporte de elétrons e 3) para ocorrer a gliconeogenese a célula muscular precisa estar em condições bem diferentes do momento do exercício para poder optar entre gliconeogenese ou metabolização do lactato (no caso estou pensando em um momento de atividade quando penso nesse tipo de suplementação).
      Abraço e agradecido pelo comentário!!!!
      P.S. você é meu xará?