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Álcool e hipertrofia: uma combinação de sucesso?

Por Jean Silvestre

O consumo de bebidas alcoólicas está cada vez mais frequente na população brasileira, segundo dados do 2º Levantamento Nacional de Álcool (Lenad), coordenado pela Universidade Federal de São Paulo, nos últimos seis anos houve um AUMENTO de 20% no número de pessoas que bebem com frequência de uma vez por semana ou mais, se formos separar por gênero, as mulheres aumentaram o consumo em 34%!! (1)

Vai uma dose de álcool aí?

Na figura abaixo (retirada do próprio Lenad), podemos observar que, mesmo a maior porcentagem de indivíduos relatar que bebe menos de 1 vez/ano ou nunca bebeu, para algumas faixas etárias o consumo de bebidas alcoólicas é frequente (dos 18 aos 34 anos).

álcool e hipertrofia

Existe algum relação prejudicial entre o álcool e hipertrofia?

Além de todos os malefícios psicológicos que o consumo frequente de bebidas alcoólicas traz (que não é o foco deste post), quais serão os efeitos para aquela população que vai todo santo dia para academia em busca de aumento de massa muscular? No intuito de responder essa pergunta um grupo de pesquisadores (dentre eles, devo destacar a presença no trabalho da Dra. Louise M. Burke e do Dr. Stuart M. Phillips – dois ícones no quesito nutrição e exercício físico) em 2014 procurou investigar os efeitos do consumo de álcool na taxa de síntese proteica miofibrilar seguidos por exercício físico com ingestão de carboidratos ou proteínas. (2)

Mas Jean, é simples, antes de eu ir para balada ou para o barzinho, posso fazer a ingestão do meu super combo de Whey Protein+Carboidrato e está tudo resolvido, certo?!

Método do estudo

Pois bem, no estudo foram recrutados 8 indivíduos e randomizados em 3 grupos (Grupo 1: Ingestão somente de Whey Protein = 25g PRO; Grupo 2: Ingestão de PRO+Álcool (25g PRO+60 ml de vodka); Grupo 3: Ingestão de CHO+Álcool (25g Maltodextrina+60 ml de vodka). Os autores encontraram uma DIMINUIÇÃO de 37% na síntese proteica do grupo que ingeriu CHO+ALC em relação ao grupo PRO. Mas os achados não pararam por ai, até mesmo o grupo que consumiu PRO, mas fez ingestão de álcool (Grupo PRO+ALC), tiveram uma DIMINUIÇÃO de 24% na síntese proteica, mostrando que o consumo de bebidas alcoólicas suprime  a resposta anabólica  e pode interferir negativamente na RECUPERAÇÃO e ADAPTAÇÃO do treinamento e, consequentemente, performance.

Ainda quer mais uma dose?

Sendo assim cabe a reflexão, habitualmente já existem inúmeros fatores que podem interferir nesse tão querido ganho de massa muscular que muitos desejam, vale a pena colocar mais um fator influenciando negativamente nesse ganho?


Referências

II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad). UNIFESP. Disponível em http://inpad.org.br/lenad/. Acesso em 11 set

2015.COFFEY, V. G.; HAWLEY, J. A.; PHILLIPS, S. M.; BURKE, L. M.; ARETA, J. L.; CAMERA, D. M.; EVELYN, B. P. Alcohol ingestion impairs maximal post-exercise rates of myofibrillar protein synthesis following a single bout of concurrent training. Plos One, v. 9, n. 2, p. 1-9, 2014.

Quero ganhar massa muscular: a cerveja interfere ou não?

Por Yuri Motoyama

Já vi inúmeras vezes alunos que entram na academia e durante as festas de confraternização começar a trocar as latas de cerveja pelo suco. Ou quando você tem um amigo que sempre sai contigo para tomar uma cervejinha e da noite para o dia ele fala “vou dar uma paradinha por um tempo”. Já sabe né? Vai ser alvo de piadas durante um bom tempo…

Mas esse cara está certo ou é um excesso de caretice da parte dele?

Em uma revisão publicada no periódico Nutrition & Metabolism no dia 6 de junho de 2014, foram analisados 106 estudos sobre consumo de álcool e sua relação com alterações hormonais e a hipertrofia. Vou separar alguns pontos do artigo para reflexão (sóbria).

Sabemos que os hormônios têm funções variadas no corpo, de modo geral eles viabilizam a comunicação entre tecidos podendo intermediar a produção, utilização e estoque de energia; reprodução; manutenção da homeostase e o crescimento (síntese proteica) celular. A literatura já mostra que a ingestão de álcool (etanol) pode prejudicar a liberação de hormônios e seus tecidos alvos, causando consequências médicas. Por exemplo, a ingestão de etanol afeta vários aspectos relativos ao metabolismo e estocagem da glicose. Sabendo que a disponibilidade de glicose é relacionada com a síntese de proteínas, logo vemos uma consequência negativa para o metabolismo.

Sabemos que o músculo esquelético é um tecido altamente adaptável e capaz de alterar a sua quantidade de proteína em resposta a desvios na homeostase celular. Durante um processo hipertrófico, de forma geral, temos dois pontos a serem considerados: o primeiro é o aumento da síntese proteica e o segundo é a redução da sua taxa de degradação. O que chamamos de anabolismo ou catabolismo é o balanço final dessa equação.

etanolExistem complexas vias de sinalização celular relacionadas à hipertrofia e muito tem se estudado sobre essas vias. Na figura em anexo vemos um quadro que descreve uma parte desses processos. Vemos que o lado esquerdo das reações levam ao anabolismo e o lado direito das reações ao catabolismo. O do processo da via de sinalização PKB (proteína quinase B)/Akt (serina/treonina quinase) à mTOR (proteína alvo da rapamicina em mamíferos) é prejudicado pelo etanol na etapa onde ocorre a hiperfosforilação da S6K, assim retardando a tradução do RNA  de proteínas ribossimais (complicou? Coloquei o nome das siglas para quem quiser pesquisar mais em português).  O etanol e seus produtos metabólicos secundários afetam diretamente a síntese proteica no musculo esquelético, principalmente as fibras do tipo IIx que sabemos que são as mais responsivas a hipertrofia.

Existe um decréscimo de 15 a 20% na síntese proteica basal observado em um período até 24h da intoxicação por etanol.  Outro ponto a ser observado é o aumento das concentrações de miostatina após 16 semanas de consumo crônico de álcool, lembrando que a miostatina é um fator de crescimento que ativam fatores de transcrição que vão levar ao catabolismo.

A relação do etanol com a secreção hormonal é bem evidente. O etanol reduz as concentrações de GH (hormônio do crescimento) e a liberação do hormônio luteinizante. Os subprodutos do etanol apresentam uma relação com o aumento dos níveis de cortisol de forma a alterar o equilíbrio catabólico / anabólico. Um dado curioso desse trabalho é a relação com a testosterona, que parece ser dose dependente. A maior parte dos estudos utilizou uma baixa dosagem de etanol (menores que 1,5 g/kg) resultando em um aumento nos níveis de testosterona circulantes. Curiosamente, todos estudos que utilizaram altas dosagens (maiores que 1,5 g/kg) apresentaram uma redução nas concentrações de testosterona (maiores evidências em mulheres).  Assumindo que uma caneca de cerveja (de 355 ml) tem uma quantidade de álcool 4,5 a 6% para uma pessoa de 70 kg, a dosagem utilizada como medida nos estudos corresponderia a 5 ou 6 canecas de cerveja. Moleza atingir a alta dosagem não? (rs)

Os estudos também mostraram que não existem diferenças nesses resultados quando comparam adolescentes e adultos (como eles embeberam os adolescentes para as pesquisas?!).

Mas o mais importante desse post é: SE BEBER NÃO DIRIJA! (rs)

Referência

Bianco A., et al. “Alcohol consumption and hormonal alterations related to muscle hypertrophy: a review.” Nutr Metab (Lond). 2014 Jun 6;11:26