Arquivo da tag: artigos científicos

Como a pirataria pode mudar a forma de se distribuir conteúdo científico?

Por Yuri Motoyama

Fonte original Blog da revista Science

Vamos iniciar um debate sobre a política de acesso aberto (open access) para artigos científicos. Vou traçar um paralelo com as postagens do blog da Nature, blog da Science e o podcast da Science sobre a utilização de páginas como a famosa sci-hub para burlar o “paywall” (página de cobrança que restringe o acesso de conteúdos) das revistas de acesso fechado e baixar os artigos gratuitamente.

Antes de mais nada recomendo fortemente que você assine o feed desses blogs e do podcast (Nature e Science), pois é uma forma mais informal para se consumir conteúdo científico de qualidade.

Vou colocar uma situação hipotética aqui que representa uma simples terça feira chuvosa comum para na vida de qualquer pesquisador. Imagine que você (pesquisador) está realizando uma pesquisa pelas bases de dados para a produção teórica de um artigo. Você encontra uns 20 artigos interessantes e na hora de clicar para ver o PDF, surpresa! Um paywall na sua cara te cobrando 30 dólares pelo download do artigo. Nem vamos fazer a conversão em reais aqui para não entrarmos em depressão. Resultado da sua pesquisa: 600 dólares somente para você poder ter acesso ao conteúdo científico que será necessário no artigo que você está produzindo. Imaginando a nossa realidade, podemos ver que é impossível desembolsar esse valor. Ao mesmo tempo não podemos deixar nosso projeto de lado por conta disso, então vamos para o plano B…

Existem outras alternativas para obtermos esses artigos de acesso fechado sem precisar recorrer a meios ilegais como, por exemplo, enviar um e-mail para o autor ou pegar uma versão (pré-revisão) nessas redes sociais voltadas para pesquisadores como o Researchgate. Porém, um dia ou outro você descobre uma “alternativa” que é a utilização de um site que burla a pagina de pagamento e você consegue o acesso ao artigo.

Clique aqui e ouça nosso podcast sobre como pesquisar artigos pela internet.

Recentemente uma matéria publicada na Science com o título “Who’s downloading pirated papers? EVERYONE” mostrou os dados coletados da página sci-hub dentro de 6 meses relacionados ao número de downloads feitos de forma ilegal pelo sistema.

sci-hub 1
Retirado do site www.sciencemag.org

O que é o famoso sci-hub que muitos pesquisadores utilizam para baixar artigos?

sci-hub
Alexandra Elbakyan

A página que já causou muita polêmica entre os editores de periódicos foi criada pela estudante Alexandra Elbakyan do Cazaquistão. A estudante iniciou esse projeto a partir da frustração de não conseguir nenhum artigo para suas pesquisas, desde então ela vem brincando de “esconde-esconde” com sua página sci-hub onde através da mudança de uma parte do endereço da web ela consegue manter seu site no ar.  Uma das formas dos periódicos evitarem que seu conteúdo seja baixado de forma ilegal é bloqueando o acesso da página sci-hub para  o site, porém Elbakyan consegue passar por esse bloqueio mudando o link da página como sci-hub.io, ou sci-hub.bz, shi-hub.cc e por aí vai…

O jornalista John Bohannon, usou dados disponibilizados pela própria Elbakyan por um período de 6 meses (setembro de 2015 a fevereiro de 2016) e chegou ao número assustador de 28 milhões de artigos baixados. No final de fevereiro os números chegaram a 200.000 artigos por dia! Os periódicos mais acessados foram da editora Elsevier, Springer e o um fato curioso é a presença da revista de acesso aberto Public Library of Science (PLoS).

De acordo com o resultado dessa pesquisa 87% dos 10.839 participantes responderam que não acham errado baixar artigos “piratas” pelo sistema sci-hub. Outro fato curioso é sobre a motivação, ao perguntar qual a razão principal para utilizar esse sistema 50% disseram que fazem isso por não ter acesso aos artigos e 23% pois se opõem ao lucro que os editores tem de forma exclusiva aos autores.

O mapa abaixo mostra os países que mais utilizaram o sistema para baixar artigos. Alguns fatores influenciam nesse número como o acesso a internet e número de habitantes, porém existem alguns dados que fogem da regra como Portugal que tem um número de downloads maior do que sua população. Em mensagem pelo Twitter, o geneticista Ben Lehner respondeu à reportagem da Nature dizendo: “…as pessoas usam o sci-hub porque ele é mais rápido, simples e confiável do que as formas oficiais desajeitadas dos sites para obter os artigos”.

Sci_Hub_GraphicElements-1_WEB
Fonte www.nature.com

Como essa discussão pode afetar a distribuição de artigos?

A politica de acesso aberto vem sendo muito discutida nos últimos anos. Uma boa parte dos questionamentos vem por parte dos autores (pesquisadores) que não acham justo o processo de submissão e a transferência de direitos autorais. De forma resumida acontece da seguinte forma: quando um pesquisador termina uma pesquisa e escreve um artigo ele precisa escolher um periódico para publicar seus dados. Imagine que essa pesquisa teve uma série de custos para ser produzida e sabemos que, no caso do Brasil, muito desses custos acabam saindo do bolso do próprio pesquisador. Depois para publicação, as revistas de maior abrangência (internacionais) cobram dos autores uma taxa – que pode chegar a 2.000 euros – para que o trabalho seja publicado. Para ter o trabalho aceito em alguma revista, o autor precisa assinar uma carta que transfere os direitos autorais do seu artigo para a revista, ficando apenas com os direitos intelectuais. Isso significa que se eu publicar um artigo em uma revista e quiser utilizar alguma figura do “meu” artigo em um livro ou uma apresentação eu não posso pois não tenho mais o direito legal sobre aquele conteúdo que eu mesmo criei. Além dos periódicos ficarem com todos os direitos do artigo eles ainda podem utilizar as figuras, tabelas e conteúdos para produzir livros didáticos e ganhar mais dinheiro às custas do trabalho do pesquisador. Esse é um ponto que incomoda muitos pesquisadores.

Há um tempo atrás os valores para publicação se justificavam pelo fato dos periódicos serem impressos e distribuídos fisicamente. Hoje em dia muito desses custos foram reduzidos sendo que as despesas de produção, impressão e distribuição não existem. Atualmente, as revistas precisam pagar apenas pela produção e manutenção de um site e um banco de dados. Eu sou a favor de que os editores e pessoas envolvidas nesses periódicos recebam pelo tempo dispendido no trabalho de comunicação com os autores e outras atividades, mas acho que a balança ainda está desequilibrada e favorece aos editores sendo que até o processo de revisão por pares é feito pelos próprios pesquisadores da área de forma gratuita.

Hoje existem movimentos contra algumas editoras, muitos pesquisadores, por exemplo, se recusam a publicar em periódicos como o Elsevier por conta dessa desproporcionalidade de distribuição de valores e direitos. Recentemente a Nature começou a disponibilizar artigos de forma totalmente gratuita e temos iniciativas como a PLoS que trabalha dentro dessa política de acesso aberto. Também existem revistas de acesso aberto que não cobram taxas para publicação de artigos. Mesmo assim, ao meu ver, quem paga pela produção científica são os próprios pesquisadores que acabam tendo vários custos associados à pesquisa e não tem o direito do acesso a outros artigos que seriam indispensáveis para o processo de produção científica.

Tem que ter muito amor mesmo…

Gostou da discussão? então clique aqui e ouça esse excelente episódio do Scicast sobre Acesso Aberto!

Será que é justo pesquisadores pagarem pelo material que vai ajudar em sua produção científica? Será que essas iniciativas ilegais como sci-hub podem fazer o mercado de distribuição científica se auto-regular e tentar buscar um ponto de equilíbrio nessa balança?

Deixe seu comentário e diga o que você acha dessa discussão!

Ciência: por que deveríamos nos acostumar a estudar mais artigos e menos livros?

Por Yuri Motoyama

Fiz uma chamada um pouco mais polêmica para trazer você para alguns parágrafos de reflexão. Você que é graduando, pós graduando ou autodidata, acredito que tenha o costume de estudar diariamente. Você consome informações específicas (técnicas) de qual fonte? Livros, artigos, internet?

Estava conversando com um amigo meu essa manhã e ele me lembrou de uma época na qual eu vivi pouco tempo. Época onde se você quisesse ter acesso a literatura científica você precisava sair de casa, ir até uma acervo (isso quando esse acervo não ficava em outra cidade), utilizar os catálogos (na minha época já existia um terminal para fazer isso eletronicamente), encontrar os artigos, xerocá-los e trazer para casa uma mala cheia de papéis. Agora me responda uma pergunta, quem fazia isso antigamente?

Com certeza se davam esse trabalho apenas os pesquisadores, docentes e autores de livros. O acesso a informação científica atualizada era restrito e nada estimulado. Na minha época de faculdade por exemplo, eu não relei a mão em um artigo científico sequer. Além do acesso ser muito complicado, não eram todos os meus professores que recorriam a esse tipo de literatura (artigos).

Se você gosta de ciência e ainda não ouviu nossa entrevista com o professor Gilson Volpato, pare tudo agora e clique aqui.

Qual o maior contraste entre os livros texto e artigos?

Vou chamar aqui livro texto aqueles livros “gigantescos” que são compilados de artigos e normalmente fazem parte da literatura básica de vários cursos. Por exemplo, na minha área existem os famosos e temidos livros de fisiologia (Guyton, Powers, McArdle, Silverthorn) que vivem andando para cima e para baixo nas axilas dos mais dedicados. Mas a questão onde quero chegar é:

Se hoje temos acessibilidade total, através da internet, a artigos científicos recentes, por que ainda recorremos a esses livros como estratégia básica de estudos?

Não estou falando que esses livros são inúteis, muito menos que são ruins! Eu mesmo tenho meus livros de cabeceira que são extremamente didáticos e prazerosos. Mas uma coisa que muitos não se atentam é que os livros são conteúdos que se desatualizam muito rápido!

Imagine um livro texto atual, vamos pensar em uma edição de 2015. Provavelmente os autores demoraram uns 2 anos (isso contanto um processo editorial rápido) para passar esse livro na mão de revisores, ilustradores, diagramadores, etc. Nesse processo é muito provável que a revisão bibliográfica desse livro não se altere, isso significa que o livro de 2015 foi revisado pela ultima vez em 2013. Agora imagine que aquele livro texto não surgiu da noite para o dia, os autores fizeram uma extensa revisão da literatura científica atualizada para montá-lo. Vamos contar que o livro (a revisão de literatura) demorou uns 3 anos para ficar pronta. Então esse livro foi idealizado e passado para o papel em um período de 2010 a 2013. Agora vamos imaginar outro cenário (bem positivista) onde durante essa revisão esses autores decidiram usar artigos que estejam dentro de um período de 5 anos para essa revisão. Então temos aí um livro que tem artigos que podem ter  sido publicados em um período de 2005 a 2013. Agora votamos para o presente, você aí com a edição de 2015 na sua mão, pode ter informações que eram recentes na época da revisão, porém hoje, essas informações podem ter uma década de novos artigos pela frente. Será que alguma coisa não pode ter mudado?

A velocidade da ciência e a importância de estar atualizado na área da saúde.

A ciência anda a passos extremamente rápidos e se você ficar alguns meses sem dar uma olhadinha na literatura muitos conceitos novos, pontos de vista, atualizações podem passar desapercebidas e seu trabalho (a aplicação do conteúdo científico) pode estar desatualizado! Eu sei que estou exagerando, mas você que é da Educação Física já deve estar cansado de ouvir que o “ácido lático” é o causador da fadiga e da dor muscular. E o pior é que essa informação pode estar em livros que compõem a literatura básica de cursos de graduação!

Atualização é muito importante e a atualização a partir de artigos científicos é mais ainda! Acredito que precisamos rever os conceitos de “acesso a informação” nas instituições de ensino. Passamos por uma fase muito rápida de transição tecnológica e isso afetou a forma como acessamos informações. Não precisamos nos prender somente em livros texto, podemos estimular nossos alunos a ler artigos e principalmente a realizarem pesquisas nas bases de dados e chegar em suas próprias conclusões.

Hoje temos professores que pertencem a uma geração onde se estudava exclusivamente em livros e aquela era a fonte de informação recente. O que acontece é que a tecnologia avançou e muitos não acompanharam essa evolução do acesso a informação. Alguns professores mais tradicionalistas (sim isso é uma crítica) vão utilizar com seus alunos as mesmas abordagens pedagógicas que foram utilizadas com eles, ou seja, os livros são tudo para a formação. Artigos? Ahhh isso é só para pesquisadores…

Hoje em dia existem crianças que acessam a internet todos os dias e não sabem que existem nada além do facebook. E não estou brincando, a internet atualmente é apenas um meio para se conectar a sua rede social favorita. Imagino como isso deve doer nos corações dos primeiros pesquisadores que “inventaram” a internet como meio de facilitar a troca de artigos entre universidades…

Você que gosta de estudar e ficou incomodado com o texto, convido-o a brincar um pouco com as bases de dados. Tente encontrar respostas para suas perguntas em artigos. Acredito que com um pouco de esforço você vai se sentir muito mais intelectualmente independente, satisfeito e seguro para atuar.

Se você quer ter experiências diferentes na internet além de redes sociais, clique aqui e veja algumas sugestões nesse post.
Se você quer ouvir um podcast com um exemplo de estratégia para encontrar informações atualizadas sobre saúde em bases de dados científicas, clique aqui!