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Meias de compressão: será que essa moda pega?

Por Yuri Motoyama

Hoje observamos que existe um kit obrigatório para dar a corridinha na praia ou no parque. Vou dar um chute aqui e você vai ticando na sua lista (rs). São eles:

  • Chapéuzinho com o cocoroto vazado (esse nome vai pegar);
  • Regata;
  • Shortinho de corrida;
  • Cinta para levar carboidrato;
  • Braçadeira para colocar seu celular;
  • Fones de ouvido;
  • Podcast 4×15 para ouvir (esse TEM que pegar);
  • Tênis da moda (provavelmente aqueles que parecem que vc deu uma bicuda em um estojo de tinta);
  • E as famosas meias de compressão.

meiaDetalhe! Tudo combinando…

Dado o fato que as pessoas precisam comer e precisam de dinheiro, a indústria fitness precisa colocar no mercado todos os tipos de produtos e novidades para encher nossos olhos. As meias de compressão estão vindo com força total. Temos vários tipos de cores, tamanhos e marcas. Mas fica aqui uma dúvida?

Para que servem essas meias de compressão?

Teoricamente, elas teriam a função de auxiliar o retorno venoso dos membros inferiores. Todo sangue que é bombeado pelo coração para os membros inferiores, precisa retornar para o coração e dar continuidade no ciclo cardiorrespiratório.  Para esse sangue retornar da sua perna, por exemplo, ele encontra uma dificuldade maior que seria vencer a ação da gravidade. O nosso próprio corpo tem mecanismos para auxiliar esse retorno com válvulas e até a própria ação muscular dos gastrocnêmios (famosas panturrilhas). As meias de compressão entrariam como um meio adicional de facilitar esse trabalho do corpo.

Existem estudos com resultados positivos e estudos que não mostram benefícios no uso da meia para melhorar o desempenho. Aqui vou mostrar um estudo recente que teve uma característica muito interessante que foi avaliar o uso de uma meia de compressão em uma prova de triathlon (meio iron man). Fato a ser considerado, pois a maioria dos resultados que temos com relação à utilização de meias de compressão foram feitos em laboratórios e com modelos para indução de fadiga.

Em que acreditar, nos livros, na ciência, no meu professor, no www.boladomarombado.com? Clique aqui e veja um post sobre.

Nesse artigo, dois grupos de atletas foram submetidos a 2 condições: um grupo utilizou a meia de compressão e o outro (grupo controle) utilizou uma meia comum (tipo soquete) durante toda a competição.

Foi realizado um teste de salto em uma plataforma de força antes e após a prova para ver se o grupo com a meia conseguia preservar a força (potência) muscular e amostras de sangue foram coletadas antes e após a prova para identificar marcadores bioquímicos relacionados ao dano muscular (Creatina Quinase, Mioglobina e Lactato Desidrogenase).

Os resultados foram interessantes, pois a utilização das meias de compressão não alteraram em nada o desempenho, não preservaram a força e nem reduziram o dano muscular causado pela competição. Podemos concluir que as meias não funcionam? Não. Temos outros pontos para levantar questionamentos do trabalho. Sabemos que outros pesquisadores encontraram benefícios pós atividade (recuperação), outros benefícios durante exercícios com a utilização das meias de compressão e a literatura parece ser bem estabelecida com relação a utilização das meias como prática terapêutica.

Se formos utilizar uma abordagem estatística com valores convencionais vemos que não houve diferença, porém o grupo que utilizou as meias realizou a prova 5 minutos mais rápido que o grupo controle. O procedimento para avaliar o dano muscular foi coletado 5 minutos após o término da competição e sabemos que as concentrações desses indicadores de dano muscular podem (e precisam) ser observadas até 72h após a indução da fadiga. Muito se discute em relação a resultados estatisticamente tratados que não apresentam nenhuma “significância”, porém as “diferenças” se forem aplicadas a prática poderiam fazer um atleta subir ao pódio por exemplo.

Particularmente eu tenho minhas dúvidas sobre a utilização de meias de compressão e ainda não bati meu martelo. Mas vale a pena ficarmos de olho.

Dê uma espiadinha nos resultados, na referência e diga o que você acha.

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Referência

DEL COSO, Juan et al. Compression stockings do not improve muscular performance during a half-ironman triathlon race. European journal of applied physiology, v. 114, n. 3, p. 587-595, 2014.

Pace: será que você sabe mesmo qual é o seu melhor ritmo de prova?

Por Yuri Motoyama

Se pararmos para observar as salas de treinamento de corrida (desde salas de musculação com esteiras até o treinamento na rua) vemos que a corrida ainda tem muitos aspectos a ser considerados. Um desses aspectos (que eu considero mais importante) seria como estabelecer os limites do treinamento de corrida e calcular o seu pace.

É fácil imaginar o controle do treino de musculação por exemplo, pois você tem as cargas (anilhas, halteres e pesos) e conta os números de repetições. Com alguns testes e um bom professor é possível estabelecer limites de treino para melhorar a força e a hipertrofia.

E como eu descubro meu pace na corrida?streetfightercollab_kotakubr01-1260x710

Você que é professor, chega um aluno e quer começar um treino de corrida. Como você faz? Sorteia uma velocidade para ele começar? Começa caminhando? Qual o pace dele? E você que é praticante de corrida, com qual velocidade você sabe que está fazendo um treino leve, moderado ou intenso? Qual a forma que seu professor utiliza para calcular seu pace?

Uma das formas interessantes para estipular essas intensidades é “olhar para dentro”. O corpo apresenta vários indicadores fisiológicos que podem nos dar pistas de quando estamos dentro de uma determinada intensidade. O problema é que essas formas geralmente são caras e inacessíveis (veja o custo de uma ergoespirometria por exemplo). Somente o aparelho necessário para esse teste custaria em torno de 80 mil reais.

Atualmente temos pesquisadores interessados em contribuir para a prática, desenvolvendo métodos mais acessíveis e práticos para chegarmos nesse “misterioso” valor mágico que é o pace. Esses métodos envolvem desde fórmulas até mensurações de marcadores bioquímicos.A partir daí, com seu pace identificado, todo seu treinamento pode ser prescrito com segurança e eficácia.

Em um trabalho publicado pelo Grupo de Estudos de Pesquisa em Fisiologia do Exercício / Santos (GEPEFEX), foram comparados 3 métodos para estimar a intensidade da Máxima Fase Estável de Lactato (MFEL), método considerado padrão ouro na qual nos aproximaríamos do L2 (segundo limiar de transição metabólica). Lembrando que saber a intensidade (no caso quantos km/h seu aluno atinge o L2) é super interessante para estipular o treinamento de corrida, determinar o pace para cada tipo de prova e fazer avaliações de performance.

Clique aqui para acompanhar a fanpage do GEPEFEX no facebook

Os métodos comparados foram o a Velocidade Crítica (VC), o Limiar Anaeróbio Individual Indireto (LAIind) e o Limiar Glicêmico (LG). Tanto a VC quanto o LAIind são baseados em fórmulas, somente o LG faz uma medida de um marcador (glicose) sanguíneo.

Os resultados foram interessantes, pois mostraram uma alta correlação (ANOVA) e concordância (Bland-Altman) entre o LAIind, o LG e a MFEL. Isso mostra que podemos trabalhar com métodos mais acessíveis para começar a prescrever o treinamento aeróbio com base em algum dado palpável e não na tentativa e erro.

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Aqui mostramos dois testes que parecem ser interessantes, um baseado em uma fórmula e outro bem simples que utiliza um aparelho de aferir glicose (igual aos que os diabéticos usam) e algumas gotinhas de sangue durante um teste de corrida.

Se você mora na baixada santista, conheça o trabalho dessa assessoria que adaptou o teste para identificar o pace de seus alunos na praia!

O corpo de evidências com relação a esse tipo de avaliação anda não é extenso, porém as evidências sugerem que essa avaliação possa ser adaptada para qualquer tipo de protocolo incremental (ciclismo, natação, etc).

Pesquise mais sobre, tire outras conclusões e compartilhe-as aqui conosco na caixa de comentários do post!

Esteja sempre antenado nas publicações, a literatura científica está aí justamente para nos fornecer melhores formas para prescrever treinamento do que a tentativa e erro!

Abraço!

Referencia

Motoyama YL, Pereira PEA, Esteves GJ, Duarte JMP, Carrara VK, Rissato GM, Azevedo PHSM. Alternative methods for estimate maximum lactate steady state velocity in physically active young adults. Rev bras cineantropom desempenho hum 2014; 16: 4.

Clique no artigo para fazer o download.

Ciclismo: enganando os atletas eles pedalam mais!

Por Yuri Motoyama

Vamos conversar um pouco mais sobre o modelo de fadiga central ou famoso modelo governador central comentado aqui em outro post. Atualmente, muitos desses modelos são feitos com ciclismo pelo fato da bicicleta facilitar alguns procedimentos durantes os testes.

Uma pesquisa conduzida na universidade de Massey na Nova Zelândia, realizou um experimento muito interessante. Um grupo de ciclismo realizou 4 testes de 4.ooo metros em um ciclo-ergômetro. O primeiro teste foi para eles se habituarem a aparelhagem (eles utilizavam mascaras para análise dos gases expirados). No segundo teste chamado de baseline, os ciclistas tentariam alcançar seus recordes nos 4.000m. Na terceira e quarta tentativa os pesquisadores informaram aos ciclistas que eles iriam competir contra seu próprio recorde. Para que isso fosse visualizado, a bicicleta que eles utilizaramModelo avatar estava conectada a um tipo de jogo de videogame. Em uma tela, os ciclistas visualizavam um ciclista pedalando contra eles, esse ciclista era um avatar calibrado com o recorde deles no baseline.

O grande lance da pesquisa era que em uma das duas ultimas tentativas (a da quebra do recorde), os pesquisadores enganavam os ciclistas e calibravam o avatar a correr 2% a mais que os seus próprios recordes.

O resultado foi muito interessante, o fato de se criar uma competição contra o avatar fez com que seus próprios recordes fossem quebrados. E o mais interessante foi que quando eles competiram contra o avatar 2% mais rápido (sem saberem), eles quebraram seus recordes novamente!

A literatura científica sobre treinamento tem muitos dados a respeito sobre como os aspectos motivacionais podem interferir na fadiga (consequente na performance). A grande dúvida que fica no ar seria: quando paramos um exercício, realmente estamos impossibilitados de continuar? Por que paramos então?

A partir desse questionamento surgem vários outros como: será que as competições esportivas de alto nível são decididas pelos atletas melhores treinados? Ou seria vencida pelo atleta mais auto-motivável. O que determinaria o ouro?

E vamos conversando…


Referência:

Stone, Mark Robert, et al. “Effects of deception on exercise performance: implications for determinants of fatigue in humans.” Med Sci Sports Exerc44.3 (2012): 534-541.