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A dor muscular tardia é um sinal de um bom treino?

Por Yuri Motoyama

Quem já não teve um aluno que comentou: “O treino de ontem foi bom! Acordei todo dolorido!”. Também temos a cultura da dor muscular em vários outros esportes. No caso da musculação, a dor muscular é associada ao sucesso no treino, adaptações de força e hipertrofia. Mas a dor muscular é realmente um indicador de um treino bem feito? Ou de resultados garantidos? E o dia em que você não sentiu dor, aquele treino não funcionou?

Antes de começarmos a falar em dor muscular POR FAVOR não a atribua ao coitado do lactato! (rs)

Se você não entendeu, clique aqui e leia esse post sobre lactato antes de prosseguir.

O que é a dor muscular tardia?

A dor muscular tardia (como é chamada aquela dorzinha que aparece no segundo dia após o treino) ainda tem suas causas pouco compreendidas pela literatura  científica. Acredita-se que ela seja produto de inflamações a nível microscópico do tecido conjuntivo. Histaminas, bradicinas, prostaglandinas e outras substâncias podem estar associadas ao desconforto através da ação sobre os nervos aferentes do tipo III e IV. Esses nervos traduzem os sinais químicos como dor para o sistema nervoso central. Outro ponto são as alterações bioquímicas resultantes da ruptura das miofibrilas, através delas entram e saem proteínas intracelulares e extracelulares que seriam promotoras da resposta inflamatória. O edema causado pelo processo inflamatório, também teria responsabilidade pelo aumento da pressão osmótica entre as fibras musculares que contribuiriam para uma maior sensibilidade dos nociceptores (receptor sensorial que causa a sensação da dor).

Existe relação entre a dor muscular tardia e a hipertrofia?

A dor muscular tardia geralmente começa se manifestar entre 6-8 horas de uma atividade intensa e atinge seu pico em aproximadamente 48 horas após o exercício.

Na clássica teoria que explicaria a hipertrofia, seus resultados vem de adaptações induzidas pelo dano muscular causado pelo exercício intenso. Porém quando vamos correlacionar a dor muscular tardia com o dano causado pelo exercício não vemos nenhuma relação de causa e efeito. Alguns estudos avaliaram alguns indicadores de dano muscular (creatina quinase plasmática, edema, força isométrica) e não viram correlações com uma escala de dor (apresentada visualmente). Outra pesquisa observou a progressão do edema através de ressonância magnética e também não encontrou pontos coincidentes entre o grau máximo da dor muscular tardia e o edema.

A dor muscular tardia nos dá uma indicação (em algum grau) da ocorrência do dano muscular sim, porém não é uma medida confiável para mensurar esse fenômeno. Se formos observar a dor muscular como sinal de hipertrofia também encontramos fracas correções. Fato observado em atletas de endurance que apresentam altos índices de dor muscular tardia sem nenhum sinal de hipertrofia.

Outro problema é que a dor muscular tardia parece variar muito de indivíduo para indivíduo, tendo atletas que apresentam índices maiores que outros mesmo realizando treinamentos de intensidade semelhante. Fisiculturistas (bodybuilders) relatam que alguns músculos são mais sensíveis a dor muscular tardia que outros, inclusive apontando que nunca sentiram dor muscular tardia em alguns grupos musculares. Em um estudo com esses atletas, foi evidente o ganho de massa muscular sem propensão a dor dos mesmos grupos musculares hipertrofiados.

Isso porque não vamos tocar nesse post em aspectos onde existe hipertrofia e ganho de força sem a presença de dano muscular (vamos deixar isso para o post de treinamento com oclusão vascular).

Clique aqui e leia um artigo sobre a segurança do método de oclusão vascular (Kaatsu Training).

Para profissionais que fazem o acompanhamento de suas sessões de musculação utilizando a escala de dor (DOMS) como forma de se assegurar de respostas hipertróficas precisam lembrar que:

  • Não existem boas correlações entre a dor e o dano muscular induzido pelo exercício.
  • Indivíduos podem apresentar mais sensibilidade a dor do que outros.
  • A presença da dor muscular tardia vai diminuindo progressivamente com o tempo e experiência de treino.
  • Existem grupos musculares mais susceptíveis a dor muscular tardia do que outros.

Então, pode até usar a camiseta escrita “no pain, no gain” porém, fique sabendo que é só propaganda.



Referencia

SCHOENFELD, Brad J.; CONTRERAS, Bret. Is Postexercise Muscle Soreness a Valid Indicator of Muscular Adaptations?. Strength & Conditioning Journal, v. 35, n. 5, p. 16-21, 2013.