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Por uma Educação além do Físico: relatos de um estagiário

Escrito por: Carlos Átila Lima dos Santos (Aluno do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal do Ceará – 3º semestre)
Orientação e revisão: Renêe de Caldas Honorato

Já tirou onda com o carinha ou menininha que não sabia jogar nada nas aulas? Não quis participar com medo de algum menino te machucar? Já ficou com raiva porque alguma menina queria participar do rachão e só iria atrapalhar? Pois é, pode acreditar, parece que tudo isso faz você se recordar de como foram as suas aulas de Educação Física não é mesmo? Infelizmente, apesar de estarmos em tempos mais “modernos”, as coisas ainda não mudaram muito nessas aulas.

Ai você se pergunta: “Como assim, faz 10 anos (20, 30…) que sai do Ensino Médio e as coisas continuam assim?”. É duro de ouvir, mas essas situações que vão de uma simples brincadeira para algo mais sério, como o bullying, ainda são comuns e remam contra a maré da enxurrada de informações que vemos ser veiculadas hoje na grande mídia. Será que a culpa é apenas dos alunos, que escutam falar na televisão sobre o tal do bullying ser algo ruim, mas mesmo assim continuam praticando? Será que eles realmente entendem a mensagem de tudo que é empurrado guela abaixo neles?

Inúmeras situações acontecem diariamente nas aulas de Educação Física escolar, cenário de diversos pontos positivos, mas que também não é difícil de se enxergar falas e atitudes no mínimo desagradáveis. O público das escolas é diversificado, principalmente na escola em que sou estagiário, então há uma variedade de cor, raça, classe social, religião e gênero, e é vantajoso para nós (futuros) professores ter uma vivência como essa, por fazer com que possamos ter uma possibilidade de aprender com essa mistura que o nosso Brasil proporciona.

No começo eu fiquei bastante assustado em ter que encarar alunos que tinham quase a minha idade, 19 anos, ou mais que ela (Já imaginou!? Eu ia nem ter voz em sala de aula por ser da idade deles). Entretanto, a minha maior surpresa foi enxergar a forma como os alunos se tratavam, pois com pouco tempo em sala de aula presenciei situações que, de alguma forma, eram agressivas, mas não porque houveram trocas de golpes físicos, mas por ferir muitos dos valores que em nossa sociedade acreditamos, divulgamos e que deveriam ser algo compreendido por todos.

 “Professor, o senhor fica deixando as meninas acabar com o nosso racha, elas eram pra varrer a quadra e não jogar com a gente…”

Fonte: Fala de um aluno dita dentro de quadra.

Essa fala que mencionei foi a que me deixou mais preocupado, apesar de outras falas dos alunos serem tão bárbaras quanto essa (Inclusive com apelo sexual), e é possível enxergar uma carga enorme de traços culturais de violência contra a mulher por dentro dessa fala preconceituosa, e com isso, a escola parece cada vez mais se tornar um local onde a “virilidade masculina” e a feminilidade são testadas ao extremo. Parece até absurdo, mas o fato de uma menina afirmar que vai entrar em quadra para jogar futsal é aterrorizante, mas por quê? Porque parece que mesmo sem razão específica, alguns meninos entendem que uma menina não deveria estar envolvida em um local de predominância masculina, ou praticar esportes que tenham contato demais.

Perdi a conta das vezes que chamei as meninas para participarem das aulas e elas ficavam em grupinhos, no celular e explicando que não poderiam participar pois estavam no período menstrual (Mesmo sendo uma justificativa válida, algumas meninas usavam esse mesmo discurso em todas as aulas, o que provava que a menstruação era apenas uma desculpa e não o real problema). O próprio ambiente escolar parece ser formado de espaços delimitados pelos gêneros: a quadra para os meninos e os pátios e corredores para as meninas, só nesses espaços que os diferentes corpos ganham sentido socialmente, eles têm marcas dessa cultura que os produziram¹.

Parece que eu torço só pelas meninas e os meninos que são os malvados das histórias todas, né? Mas não é isso, com certeza algumas meninas agem com preconceito com os meninos em certas situações, se o menino não jogar futsal elas já associam ele a um cara que não se encaixa no padrão dos outros meninos sendo que simplesmente ele somente pode não se sentir à vontade, não gostar da modalidade, não saber jogá-la.

Mas por que existe uma rigidez tão grande destes padrões? Por que isto não é um assunto curricular? O brincar, o fazer e o praticar eram para ser algo livre sem um padrão, esse reflexo da sociedade é para ser debatido, não somente na escola, mas na formação dos profissionais de Educação em geral.

O trabalho de professor é algo fluido e mutável, todo dia surge uma problemática nova dentro da escola, e apesar de entender que não se pode preparar os professores para tudo que vai acontecer dentro da prática na escola, algumas questões estão bem presentes no contexto escolar a um bom tempo (gênero, sexualidade, racismo, bullying). Estas situações aprisionam o aluno em um mundo cheio de barreiras sociais que buscam ditar o seu comportamento, e sua vivência corporal, limitando suas experiências e fazendo com que a prática corporal muitas vezes seja algo obrigatório e enfadonho

A mensagem que quero passar é que trabalhar estas temáticas faz parte da construção pessoal do aluno e da aluna, a escola tem que ser um local político, e palco de discussões desse tipo. Infelizmente os cursos de graduação das Universidades públicas do Ceará ainda não abordam nos cursos de Educação Física uma disciplina/conteúdo específica apenas sobre esses temas apresentados²,³. Entretanto, este fator não nos impede de buscar cursos e materiais que inspirem essa formação continuada e que mantenhamos a compreensão a respeito do(s) assuntos em questão, pois o desconhecimento de como tratar essas questões acaba por piorar o dia-a-dia da escola e principalmente nas aulas de Educação Física.

O direito de liberdade de expressão é algo fundamental que deve ser visualizado nisto tudo, para que todo esse panorama seja discutido na escola e na formação do próprio professor, é preciso descontruir essa visão preconceituosa e fazer com que o próprio ambiente escolar seja um espaço de conhecimento e não somente de doutrinação.

Referencia

¹LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, Guacira Lopes. O Corpo Educado: Pedagogias da Sexualidade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 127p.

²https://si3.ufc.br/sigaa/public/curso/curriculo.jsf

³http://www.uece.br/uece/index.php/graduacao/presenciais