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Podcast #63 – Suplementação de Beta Alanina

Olá pessoas!

Nesse podcast vamos contar com os conhecimentos no nosso nutricionista esportivo Jean Silvestre para conversamos sobre uma forma de suplementação que vem sendo muito pesquisada. A Beta Alanina é um aminoácido que parece ter uma função tamponante e antioxidante bem interessante. Dê um play e receba um pouquinho de informação diretamente no pé do seu ouvido!

Participe dessa discussão, traga novas informações e principalmente, deixe seu comentário!

Links citados no podcast

Podcast Galera do RAU;

NaTrilha Podcast;

CienciaInForma (video sobre Beta Alanina):

Referências

Hoffman JR, Ratamess NA, Faigenbaum AD, Ross R, Kang J, Stout JR, et al. Short-duration beta-alanine supplementation increases training volume and reduces subjective feelings of fatigue in college football players. Nutrition research (New York, NY). 2008;28(1):31-5.

Smith-Ryan AE, Fukuda DH, Stout JR, Kendall KL. The influence of beta-alanine supplementation on markers of exercise-induced oxidative stress. Applied physiology, nutrition, and metabolism = Physiologie appliquee, nutrition et metabolisme. 2014;39(1):38-46.

Hill CA, Harris RC, Kim HJ, Harris BD, Sale C, Boobis LH, et al. Influence of beta-alanine supplementation on skeletal muscle carnosine concentrations and high intensity cycling capacity. Amino acids. 2007;32(2):225-33.

Harris RC, Tallon MJ, Dunnett M, Boobis L, Coakley J, Kim HJ, et al. The absorption of orally supplied beta-alanine and its effect on muscle carnosine synthesis in human vastus lateralis. Amino acids. 2006;30(3):279-89.

Por que uma pessoa se cansa em um exercício com intensidade correspondente a máxima fase estável de lactato?

Por Yuri Motoyama

Um dos pontos que inflama minha curiosidade com relação a fisiologia do exercício é a fadiga muscular. Se procurar aqui pelo site existem várias postagens sobre esse tema. Existem modelos tradicionais que explicam a fadiga por mecanismos “centrais” (coração) e mecanismos periféricos (musculatura). A literatura científica contemporânea já coloca um ingrediente nessa mistura que é a ação do sistema nervoso central no aparecimento da fadiga. Então, atualmente a palavra mecanismo central de fadiga está relacionada ao sistema nervoso central e fadiga periférica está relacionada a todo o restante (musculatura, concentração de lactato, sistema circulatório, densidade mitocondrial, etc).

Se você ainda tem dúvidas sobre a diferença entre “ácido lático” e lactato clique aqui e leia esse post!

Máxima Fase Estável de Lactato (MFEL) e fadiga

A máxima fase estável de lactato é um indicador fisiológico bem interessante. “Teoricamente” um exercício com sua intensidade estabilizada pela MFEL teria que ser realizado por tempo indeterminado. Imagine a produção de energia vinda do metabolismo da glicose, sabemos que quando a intensidade da atividade está acima do segundo ponto de transição metabólica (famoso L2) a atividade está no domínio pesado e consequentemente (se houver incremento) domínio severo. Nessa situação, se observarmos o comportamento do lactato na corrente sanguínea, ele aumentaria constantemente caso a intensidade continue a mesma.

Agora se realizássemos essa mesma atividade exatamente no segundo ponto de transição metabólica (que estamos chamando de máxima fase estável de lactato) observaríamos a produção de lactato, porém com uma taxa de remoção equivalente. Então, teríamos uma atividade com uma intensidade máxima (sem entrar no domínio pesado) metabolicamente estável. Por isso que eu utilizei a palavra “teoricamente” para definir que nesse ponto a fadiga não poderia ocorrer por conta da intensidade, pelo aumento da acidose ou por fatores recorrentes ao metabolismo.

O que limitaria um exercício na máxima fase estável de lactato

Imaginando que estamos considerando uma intensidade metabolicamente estável, fica a pergunta: qual fator poderia interromper uma atividade nessas condições? E antes que você levante a questão sobre os estoques de substratos energéticos, os autores apontaram em uma outra revisão que no momento que ocorre a fadiga os estoques de ATP e glicogênio estão preservados em torno de 50 a 60%.

Dessa forma, os autores do trabalho que estou comentando nesse post propuseram a seguinte condição experimental. Realizaram um exercício incremental máximo e, em outra condição, um exercício na MFEL até a exaustão voluntária dos participantes. Veja os resultados dos testes máximos:

lactato fig 1

Agora vamos pensar nos testes realizados na máxima fase de lactato, os participantes se exercitaram em média 55 minutos (desvio padrão de 8,5 min). Eles interromperam o teste com a frequência cardíaca final de 175 BPM; o VO2 2,8913 l/min; o VCO2 2,7586 l/min; o quociente respiratório 0,97; e a ventilação 85,4 l/min. Compare esses valores com os resultados dos testes máximos acima. Eles poderiam ter ido mais longe não?

Agora dê uma olhada nos outros resultados do teste da MFEL:

lactato fig 2

Conclusão

Podemos parar para pensar em muitos aspectos sobre esse artigo. Como eu costumo classificar, um artigo bom é aquele que levanta mais questionamentos do que explicações. Podemos ver que nenhum fator analisado poderia explicar a fadiga, a não ser o aumento da concentração de amônia que foi um ponto que ficou aberto em discussão no artigo. Acho esse artigo um exercício para pensarmos em quais pontos poderiam explicar a fadiga, como poderíamos montar um delineamento ou observar uma variável para explicar esse fenômeno. Sabemos que a fadiga é multifatorial e seu estudo complica ainda mais pelo fato de termos um forte componente central a controlando. Convido vocês a lerem o artigo completo e deixarem aqui nos comentários sua opinião.

Se você se interessou pelo conceito de fadiga explicado pela interação do corpo com o sistema nervoso central clique aqui e leia esse post!
Se quiser ouvir um podcast sobre mecanismos de fadiga clique aqui.


Referência

BARON, Bertrand et al. Why does exercise terminate at the maximal lactate steady state intensity?. British journal of sports medicine, v. 42, n. 10, p. 828-833, 2008.

Ácido Lático: culpado, inocente ou inexistente!?

Por Yuri Motoyama

Imagine que você está indo até o seu banco. Chegando na porta você entra junto com 3 indivíduos estranhos, com boné, uma jaqueta de laranja, barba por fazer e cara de malvado. Assim que os dois passam pela entrada do banco o indivíduo tira uma arma e anuncia um assalto. Minutos depois a polícia vem, prende o ladrão e também prende você, como cúmplice.

Injusto isso não?

Pois é meu amigo, essa história tem o mesmo sentido quando afirmamos que o “ácido lático” é o causador da fadiga, da dor muscular tardia, da acidose muscular, da fome no mundo e não me surpreenderia se o “ácido lático” for culpado também pela sacolada que o  Brasil levou na copa do mundo (Brasil X Alemanha).

Antes de continuar eu quero retirar as aspas da palavra “ácido lático”. Na verdade, para uma biomolécula ser considerada um ácido ela precisa respeitar alguns parâmetros, o principal deles é a liberação de íons de hidrogênio no meio onde está diluído (no caso esse meio é o sarcoplasma ou o interior da célula muscular).  Fato que leva a diminuição do pH e aumento da acidose. Outro elemento importante nessa história é chamado de Constante de equilíbrio (Ka leia também sobre constante de dissociação pKa) que indica um valor onde ocorreria um equilíbrio das moléculas ou dos íons em solução.

O grande lance está na fato de que o “ácido lático” existe sim, só que ele precisa estar em um meio (solução) que permita sua existência. Ou seja, sua constante de equilíbrio tem o valor de 3,86 e o pH fisiológico fica em torno de 7,3 a 7,5 tornando muito difícil a existência de tal ácido (muito menos uma produção expressiva) no corpo humano. E também não vamos justificar como nos livros de fisiologia mais antigos que o “ácido lático” vem do “ácido pirúvico” pois o mesmo tem uma constante de equilíbrio 2,5. Estamos falando de uma reação no final da glicólise que transforma o piruvato em lactato.

Está sem tempo para ler, então clique aqui e ouça um programa sobre esse tema enquanto você faz outra coisa…

E sabe por que ocorre essa reação?

Por que o lactato recebe íons de hidrogênio como um mecanismo de tamponamento. É uma das primeiras linhas de defesa do músculo para evitar a acidose e consequentemente um ajuste para baixo das reações enzimáticas. Além do lactato receber esses íons de hidrogênio, ele os transporta para fora da célula (para o sangue) onde lá ele pode ser tamponado por outro mecanismo (ação do bicarbonato).

Percebeu a semelhança dessa história com a que contei no começo? A algumas décadas atrás quando observávamos a fadiga, a acidose e íamos aferir algum marcador bioquímico no sangue (ou no músculo em animais) encontrávamos quem? O lactato! Mas coitado é o laranja da história. Ele estava entrando no banco junto com os ladrões (íons de hidrogênio) e acabou pagando o pato por anos.

Hoje vemos na TV comentadores esportivos, atletas e até educadores físicos vomitando pérolas como: “Olha o desempenho caindo, nessa hora o ácido lático deve estar pegando”, “Agora é o momento de fazer uma atividade recuperativa para remover o ácido lático” ou “Essa dorzinha que está sentindo do treino de anteontem é o ácido lático”. Eu também já vomitei muito dessas pérolas no início da minha atuação como profissional.  Mas agora estou curado, encontrei pubmed (rs)!


Essa seção eu adicionei após uma extensa e interessante discussão sobre o tema. Infelizmente em um processo de mudança no sistema de comentários do site eu perdi os comentários dos professores Marco Machado e Lucas Helal. Porém vou deixar as suas indicações de literatura de apoio aqui. Agradeço muito aos professores por colaborarem com o conteúdo e que isso possa incentivar outros profissionais a participarem das nossas discussões!

Ficou interessado? Leia o artigo publicado pelo Professor Marco Machado (em português) clicando aqui.
Leia mais evidências sobre o tema clicando aqui (indicação do Professor Lucas Helal).


Referências

(olhem as datas dessas publicações para verem que não é nenhuma novidade)

Gladden, L. Bruce. “200th anniversary of lactate research in muscle.”Exercise and sport sciences reviews 36.3 (2008): 109-115.

Cairns, Simeon P. “Lactic acid and exercise performance.” Sports Medicine36.4 (2006): 279-291.

Macedo, Denise Vaz, et al. “Is lactate production related to muscular fatigue? A pedagogical proposition using empirical facts.” Advances in physiology education 33.4 (2009): 302-307.

A fadiga pode estar na sua cabeça?

Por Yuri Motoyama

Gosto de pensar que o conhecimento que a humanidade acumulou, sempre tentou estabelecer ou entender os limites das coisas. Tudo (inclusive o próprio conhecimento) tem um limite e a ciência avança quando entende e consegue dar um passo além desse limite. Assim, estabelecendo um novo limite a ser estudado.

Com a atividade física não é diferente. Qual é o limite do seu desempenho? Quanto que um ser humano consegue produzir de trabalho físico? Quando você cansa? E a melhor pergunta: Por que você cansa?

Vários autores arriscam suas fichas e tentam explicar os limites do desempenho físico humano e a fadiga.

Um dos pioneiros nesse campo foi o fisiologista Angelo Mosso (1846-1910) que dizia que “a fadiga poderia ser uma imperfeição do nosso corpo, caso contrário seríamos maravilhas perfeitas”.  Anos depois, em 1922 chegamos ao ganhador do prêmio Nobel de fisiologia e medicina Archibald Hill (1886-1977) que através de seus experimentos começou a delinear o pensamento da fadiga que temos hoje. A fadiga como uma falha de algum sistema biológico em gerar energia (ou reconverter substratos para sua forma energética potencial). Ainda vou falar mais sobre essas figuras em outra postagem.

Atualmente, existe um terceiro autor nessa história chamado Timothy Noakes, que nessa última década colocou várias pulgas atrás das orelhas dos pesquisadores e instalou o caos na ordem. Quando todos estavam conformados com seus estudos sobre “acido lático”, frequência cardíaca máxima, depleção de substratos energéticos o Sr. Tim Noakes chega dizendo que tem alguma coisa a mais nessa história. Estávamos esquecendo o cérebro!

Clique aqui para ler um post sobre a diferença entre o ácido lático e o lactato.

Bem resumidamente, o sistema nervoso central (batizado como Governador Central por Noakes) está gerenciando todo esse trabalho produzido pelo corpo. E em um determinado momento o cérebro (o Governador) decide parar. Muitos trabalhos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa do Noakes (e também temos pesquisadores pensando nisso aqui no Brasil) mostram que a fadiga aparece em situações onde o corpo teria condições de se exercitar por tempos maiores. Em alguns casos, o corpo poderia se exercitar sob certas intensidades indeterminadamente!

Um caso bem interessante foi apresentado um tempo atrás no globo esporte. Uma mulher que passou por uma cirurgia cerebral começou a correr incansavelmente, chegando a completar uma prova de 690 km!

Clique aqui para ver a reportagem.

Imagine uma prova de nível olímpico. Dada a largada temos 3 corredores nos 10 metros finais. Os 3 finalistas provavelmente estão dando o máximo de si pois treinaram a vida inteira para aquele momento. O primeiro colocado quer quebrar o recorde mundial além de ganhar o ouro. Aí esse primeiro colocado dá uma olhadinha de canto de olho para trás e vê chegando em uma velocidade enorme o segundo e o terceiro. Sabe o que acontece? Provavelmente ele vai dar um sprint e tirar essa diferença. Aí eu te pergunto?

Se ele estava correndo no “máximo” de onde saiu essa energia do sprint? Porquê ele já não a usou desde o começo?

Se você gostou da matéria, clique aqui e ouça um podcast que aborda uma estratégia ergogênica de neuromodulação.

Quer outro exemplo?

Imagine que você vai correr 5 km de um ponto A ao ponto B. Qual o tempo mínimo que você conseguiria fazer isso? Agora imagine a mesma situação, só que adicionando que no ponto B tem sua filha prestes a morrer por um veneno que só pode ser curado com o antídoto que está na sua mão. Provavelmente você irá reduzir esse tempo que você achava que era máximo.

Bom, vou deixar um artigo aqui para quem se interessou pelo assunto. Logo mais voltaremos para esse tema.


Referência

NOAKES, T. D.; ST CLAIR GIBSON, A.; LAMBERT, E. V. From catastrophe to complexity: A novel model of integrative central neural regulation of effort and fatigue during exercise in humans: Summary and conclusions. Br J Sports Med, v. 39, n. 2, p. 120-4, Feb 2005.