Treinamento Concorrente: Entendendo essa estratégia de treino – Parte 2

Por Fabio Rocha

Como no texto passado sobre treinamento concorrente nós discutimos sobre as variáveis moleculares que explicam a interferência ocasionada pelo treinamento concorrente, hoje iremos discorrer sobre suas adaptações e verificar um modelo que a literatura sugere para trabalhar com esse tipo de estratégia. Sabia que essa é uma estratégia que pode ser usada no treinamento?  Vamos ao texto!

Se você não lembra ou não leu o texto anterior que complementa essa postagem, clique aqui depois retome a leitura … é rapidinho!

Já são bem descritas as adaptações que o treinamento de força e o de resistência cardiorrespiratória provocam quando executados de maneira isolada. Essas adaptações podem ser dividias em periféricas (na musculatura) e centrais (fora da musculatura). No treinamento de força, podemos citar como adaptações centrais o aumento no recrutamento de unidades motoras, enquanto que o aumento na área de secção transversa muscular ocasionada pela elevação de síntese protéica é considerada como sendo de ordem periférica (DOCHERTY e SPORER, 2000). Já no treinamento de resistência cardiorrespiratória, as adaptações centrais corresponderiam as melhoras no sistema cardiorrespiratório (melhora na captação de oxigênio), enquanto que as adaptações periféricas estariam relacionadas com mudanças no interior da musculatura (e.g., biogênese mitocondrial) ( DOCHERTY e SPORER, 2000).

OK Fabio, mas e se executarmos os dois tipos de treinamento em conjunto e ainda variar a ordem de execução destes, o que é melhor?

O estudo de ROSA et al. (2015) comparou o efeito agudo que diferentes modos de execução de treinamento concorrente teria sobre parâmetros hormonais (testosterona e GH) de 14 homens com idade de 24.7 ± 5.1 anos. Os indivíduos foram divididos em dois grupos: Um grupo que executou o treinamento de resistência cardiorrespiratória seguido do treinamento de força (G1) e o outro que executou o treinamento de força seguido do treinamento de resistência cardiorrespiratória (G2). O treinamento de esteira consistiu de treino intervalado, sendo 2 minutos com uma corrida correspondente a 2 mmol • L−1 de lactato alternando com 1 minuto de velocidade correspondente a 4 mmol • L−1. Já o treinamento de força consistiu de 3 séries de 10 repetições a 70% de 1RM. Os autores constaram que o G1 apresentou aumentos significativos para testosterona após a sessão, enquanto que no G2 não foi possível observar essa alteração. Para concentrações séricas de GH, houve aumentos significativos nos dois grupos após o exercício, sem diferenças significativas entre eles.

Existe um modelo presente na literatura que sugere que a interferência está relacionada com a intensidade dos dois tipos de treinamento. Esse modelo foi criado por DOCHERTY e SPORER (2000). Estes autores analisaram as diferentes intensidades que os estudos da revisão utilizaram, podendo observar que as adaptações promovidas pelo treinamento estão diretamente relacionadas com a intensidade do mesmo. Dessa maneira, os autores sugerem que se um indivíduo tem por objetivo as adaptações periféricas no treinamento de resistência cardiorrespiratória, por exemplo, não pode buscar o mesmo objetivo para o treinamento de força, e vice-versa. Caso isso aconteça, o indivíduo estaria exercitando-se na zona de interferência, e as adaptações que o mesmo almeja não serão alcançadas de forma eficiente, devendo este exercitar-se em zonas diferentes (Periféricas e Centrais) para cada tipo de treinamento o que diminuiria a interferência ocasionada pelos dois tipos de práticas. Esse modelo é ilustrado na figura abaixo.

Modelo de zona de interferência de DOCHERTY e SPORER (2000)
Modelo de zona de interferência de DOCHERTY e SPORER (2000)

A compreensão desse modelo nos ajuda a entender melhor as diferentes adaptações ocasionadas pelo treinamento. Entretanto, deve-se atentar à alguns pontos deste:

  1. Como o modelo é pautado primordialmente na intensidade, as demais variáveis do treinamento que englobariam a carga de treinamento (volume, intensidade e densidade) não são consideradas
  2. Através de estudos atuais (publicados ainda em 2016) sabe-se que treinamentos com elevadas repetições promovem adaptações similares para hipertrofia quando comparado ao que é sugerido para esse objetivo (8-12 RM). O modelo já mostrava esse pensamento lá em 2000, colocando em questionamento as sugestões atuais para o treinamento com objetivos de hipertrofia.
  3. O modelo não cita a ordem que os exercícios devem ser executados (apesar de alguns dados da literatura ainda serem divergentes)
  4. O que se sabe atualmente sobre o treinamento de resistência cardiorrespiratória, é que exercícios executados em intensidades superiores a 85% do VO2máx também são capazes de promover adaptações periféricas
  5. A partir desse modelo, pode-se compreender a diferença entre treinamento combinado e concorrente

“Poxa, então o treinamento concorrente não serve para nada?”. Vou deixar um artigo como sugestão de leitura para quem quiser se aprofundar nesse tema e saber os diferentes benefícios que o treinamento concorrente pode ter. Se algumas interrrogações brotaram na sua cabeça o objetivo do texto foi atingido.

Até a próxima e não deixe de contribuir com as discussões aqui embaixo nos comentários!

Referências

DOCHERTY, D.; SPORER, B. A proposed model for examining the interference phenomenon between concurrent aerobic and strength training. Sports Medicine, v. 30, n. 6, p. 385-394, 2000.

ROSA, C.; VILAÇA-ALVES, J.; FERNANDES, H. M.; SAAVEDRA, F. J.; PINTO, R. S.; REIS, V. M. Order effects of combined strength and endurance training on testosterone, cortisol, growth hormone, and IGF-1 binding protein 3 in concurrently trained men. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 29, n. 1, p. 74-79, 2015.

Sugestão de leitura:

PAULO, A. C.; DE SOUZA, E. O.; LAURENTINO, G.;UGRINOWITSCH, C.; TRICOLI, V. Efeito do treinamento concorrente no desenvolvimento da força motora e da resistência aeróbia. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, v. 4, n. 4, 2009.