Bioenergética: O que são os famosos limiares? Parte 2/2

Prazer! Eu sou o Limiar anaeróbio! Ops…peraí. Não, eu sou o limiar de Lactato! Não sou? Sou o Segundo Limiar Ventilatório?

Espera um pouco, QUEM SOU EU?

Lembrando que esse texto tem uma introdução indispensável, clique aqui e leia a parte 1.

Como conversamos na postagem anterior sobre bioenergética, os limiares de transição metabólica são pontos que precisam ser entendidos para poderem ser definidos. Mas depois disso estar bem estabelecido em nossas mentes e nossos corações (rs). Qual é o próximo passo?

Para que servem esses limiares?

A prescrição de treinamento, principalmente quando falamos de treinamento de endurance (atividades com cargas e intensidades constantes) tem todos seus benefícios quando está totalmente estabelecida nesses limiares. Sua utilização é fundamental para você (praticante de atividades físicas por saúde), passando pelos atletas de alta performance até portadores de doenças que precisam ter seus treinos muito bem calculados.

De maneira didática eu gosto de simplificar os nomes para primeiro limiar (L1) e segundo limiar (L2). Na prescrição do treinamento é indispensável a identificação do segundo limiar. Por exemplo,  com teste incremental em uma esteira (avaliando algum parâmetro que vamos discutir aqui embaixo) eu consigo dizer qual velocidade está associada ao seu L2. A partir daí eu saberia te dizer qual velocidade você faria seus tiros para um treino de HITT ou qual velocidade você correria seu “longão” por exemplo.

Os limiares servem tanto para estabelecer os limites do treinamento quanto como medida de reavaliação. Conforme seu metabolismo vai se tornando eficiente ele consegue produzir mais trabalho em uma mesma intensidade.

Por que eles têm nomenclaturas diferentes?

Na verdade isso é simples também. Dependendo da forma como você avalia o limiar, ele vai ter uma nomenclatura diferente. Podemos identificar os limiares por parâmetros ventilatórios, metabólicos, eletromiográficos, catecolamínicos, etc. Existem fórmulas que tentam usar parâmetros mais acessíveis (como a velocidade média de uma corrida de  3km por exemplo) para estimar esses valores, porém muitos métodos acabam sendo imprecisos quando pensamos na individualidade biológica.

Vamos ver alguns nomes atribuídos ao segundo limar e o porquê desses nomes

  • Máxima Fase Estável de Lactato. Pelo comportamento da Lactatemia podemos determinar os limiares de transição metabólica. A partir dessa observação alguns autores chamam o L1 de Limiar de Lactato e o L2 de Máxima Fase Estável de Lactato (MFEL). A MFEL corresponde à mais alta intensidade de esforço que pode ser mantida sem acúmulo de lactato no sangue. Ou seja, todo lactato produzido nessa intensidade é consumido proporcionalmente nos processos metabólicos. Para identificação da MFEL nós temos alguns problemas que são: 1) O teste que envolve de 3 a 6 tentativas em dias distintos; 2) O custo da análise do lactato depende de aparelhos que não são tão baratos. Porém esse teste é o padrão ouro para se identificar o L2.
  • Limiar Anaeróbio. Esse nome teve início em 1955 com o fisiologista Hollman. Essa nomenclatura vem da ideia de que a partir do L2 existe uma contribuição maior do metabolismo anaeróbio e o exercício não depende mais das vias aeróbias de produção de energia.
  • Limiar Ventilatório. Se observarmos um gráfico com a ventilação de um atleta em um teste de esforço incremental, iremos observar inflexões no aumento linear do volume de ar movimentado pelos pulmões. A explicação para esse fenômeno é que o atraso em se atingir um estado estável metabólico faz com que exista um déficit de oxigênio, assim a ressíntese de ATP tem que ser suplementada por vias anaeróbias de forma a produzir lactato. O próprio gás carbônico produzido pela respiração celular juntamente com o gás carbônico vindo do processo de tamponamento sanguíneo (via Lactato + Hidrogênio) estimularia os centros respiratórios produzindo as alterações no comportamento da ventilação. Quando observamos pelo comportamento da ventilação podemos chamar o L1 de Limiar Ventilatório e o L2 de Ponto de Compensação Respiratória (onde a acidose vinda do metabolismo é tamponada por uma alcalose respiratória).
  • Limiar Glicêmico. Nesse caso podemos determinar pela glicose circulante um ponto próximo ao L2. Em um exercício incremental temos dois momentos distintos. Um onde existe uma queda na glicemia devido ao seu consumo e um efeito rebote onde hormônios hiperglicemiantes tentam restaurar suas concentrações. O ponto onde existe esse rebote (a menor concentração de glicemia no teste incremental) podemos associar ao segundo limiar. Esse método tem uma vantagem de ser barato e acessível apesar de não ter um grande corpo de evidências a seu favor.

Ainda temos outras formas de determinar os limiares como eu disse anteriormente. Porém essas são as mais utilizadas para fins de pesquisa e prescrição de treinamento. Na verdade todas as formas são alternativas de se estimar a MFEL que é considerado o padrão ouro. Umas são mais precisas do que outras. Nesse caso temos que tentar ser mais precisos e adaptar os testes a nossa realidade.

Mas EVITAR AO MÁXIMO estabelecer limites do seu treino no chute ou no achismo. A ciência está aí justamente para nos ajudar.


Referencia

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