Hidratação em atividades de longa duração: quanto mais água melhor?

Por Yuri Motoyama

Já fiz um post relacionado a esse tema, porém um artigo discutido recentemente no grupo de estudos em fisiologia que participo levantou algumas questões interessantes. Voltamos aos tradicionais posicionamentos do American College of Sports Medicine (ACSM). Em primeiro lugar acho muito complicado determinarmos “diretrizes” ou “posicionamentos” para a Ciência do Treinamento. É claro que existem fatos que são inquestionáveis e respostas fisiológicas que são bem compreendidas pela ciência. Mas colocar em um “manual” que para hipertrofia basta usar uma faixa X de repetições ou que uma redução pontual do peso corporal total acarreta em perda de desempenho fica um pouco complicado.

Uma redução maior que 2% do peso corporal total em uma atividade de predomínio anaeróbio, poderia prejudicar o desempenho?

Vou referenciar aqui o artigo que citei no começo do texto. Se formor realizar uma análise mais crítica desse artigo, existem vários pontos a serem esclarecidos, inclusive os próprios fatores motivadores em se opor aos posicionamentos da ACSM.

O fato aqui em questão é se a desidratação realmente prejudica a performance em uma atividade de longa duração. O posicionamento do ACSM diz que perdas de peso total maiores que 2% são prejudiciais, entretanto existem muitas evidências recentes que mostram o contrário. Atletas mais rápidos ou que atingiram seus melhores resultados são os que perdem mais peso durante uma prova.

Por que perdemos peso em atividades de longa duração?

A maior parte do peso que perdemos em atividades de longa duração está relacionado a água. Se formos pensar em uma próxima pergunta seria: por que perdemos água?

Apesar do nosso corpo ser uma das máquinas mais perfeitas, durante o nosso processo de geração de energia, mais da metade da energia gerada pelo corpo e perdida em forma de calor. Isso faz com que nós (seres homeotérmicos) tenhamos que ter um eficiente sistema de controle de temperatura. A partir das nossas glândulas sudoríparas (aproximadamente 3 milhões) conseguimos transportar água “carregada” com calor interno do corpo para a superfície e assim através da evaporação, dissipamos o calor do nosso corpo.

E o que isso tem a ver com o meu desempenho?

Em 2008 um recorde era quebrado na maratona de Berlim. O atleta a realizar essa façanha era o etíope Haile Gebrselassie com a marca de 2h03m59s. Nessa competição foi registrada uma perda de massa corporal em torno de 10%. Se fossemos utilizar o padrão dos 2% estabelecidos pelo ACSM essa redução de 10% comprometeria a performance a ponto de ser impossível bater o recorde mundial. No estudo referenciado aqui (lembrando que existem muitas limitações) foram analisador 643 maratonistas e foi possível observar que existiram atletas que terminaram a maratona com bons resultados e um alto índice de desidratação. Veja a figura abaixo.

hidratação figura

É claro que também existiram atletas que desidratam muito (reduziram muito o peso corporal total) e tiveram os piores resultados, porém a dúvida que fica é a seguinte. Por que os atletas desidrataram e não perderam performance?

Seriam falhas na estratégia de hidratação?

Minha opinião é que se encaramos a desidratação como um problema a ser resolvido tomando água, podemos estar competindo (comprometendo) um mecanismo fisiológico de homeostase. Durante o exercício de longa duração, nosso corpo está constantemente trabalhando para manter um eficiente sistema de dissipação de calor (interno → pele) e para isso ele vai ter que perder água, porém mantendo um ambiente isosmótico durante o processo de desidratação. O corpo vai estar funcionando bem (sem desequilíbrio de sais, eletrólitos) porém, apenas com uma quantidade de água reduzida. Aí vem minha grande dúvida:

E se a hidratação forçada (sem sentir sede) interrompesse todo esse processo de equilíbrio osmótico do corpo. Lembrando que a água tem uma rápida absorção, será que a famosa “estratégia de hidratação” não pode atrapalhar esse processo do corpo em manter a eficiência com menos água?

Esse ainda vai ser um tema bem polêmico, principalmente por que existe uma grande indústria de suplementos e produtos voltados para hidratação na prática esportiva. Porém fiquemos atentos as interrogações que a ciência nos mostra para não sermos ludibriados.

Não quero com esse texto que você altere suas estratégias de treino da noite para o dia ou que saia pedindo para seus alunos não se hidratarem durante os longões no verão. Mas fica aqui uma pulga atrás da orelha para refletirmos sobre mais um paradigma do treinamento.

Um abraço e só tome água quanto estiver com sede! Rs


Referência

ZOUHAL, Hassane et al. Inverse relationship between percentage body weight change and finishing time in 643 forty-two-kilometre marathon runners.British journal of sports medicine, v. 45, n. 14, p. 1101-1105, 2011.