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No pain no gain: o retorno…da dor?

Por Yuri Motoyama

Hoje vou trazer aqui um estudo publicado no periódico chamado Pain Medicine sobre os efeitos do exercício sobre a modulação da dor. Como é um artigo que tem sua discussão voltada para a parte de tratamento, vou tentar fazer uma abordagem diferente, mais voltada para a Educação Física e um pouco do que vimos na prática com a famosa frase no pain no gain.

Existe uma adaptação do treinamento físico voltada para a modulação da dor e um fator interessante é que o exercício pode reduzir a sensação da dor. Esse efeito é discutido na literatura como Hipoalgesia induzida pelo Exercicio (IHR). Em algumas referências citadas no artigo (não deixe de ler os artigos comentados na íntegra e ter a SUA opinião) muitos autores observaram efeitos agudos e crônicos sobre a relação do exercício sobre a percepção da dor. Grande parte desse efeito está associada a:

  1. Eventos agudos, como aumento da pressão arterial e inibição da comunicação entre o sistema nociceptor e o sistema nervoso central devido a ativação dos motoneurônios.
  2. Eventos crônicos, que estão relacionados à liberação de substâncias opioides e endocanabinoides.

O que é a dor que sentimos após o treinamento?

Aquela dorzinha que sentimos após o treinamento, tecnicamente é chamada de Dor Muscular de Início Tardio (DMIT) e está relacionada à infiltração de macrófagos e neutrófilos no tecido danificado. Após isso, existe a liberação de citocinas que levam a uma maior sensibilização dos receptores do sistema nervoso para dor (chamados de nociceptores).

Como comentei essa pesquisa teve um caráter mais terapêutico e os autores procuraram avaliar o limiar de percepção de dor. Basicamente é um aparelho que exerce uma pressão sobre a coxa (o exercício era para quadríceps) e era mensurada a quantidade de pressão necessária para o indivíduo perceber a dor.

Pontos interessantes sobre a dor e sua relação com o exercício

Em vários momentos durante a leitura do artigo eu pensava em links voltados para nossa área como:

  • Nessa pesquisa e em outros artigos citados, o exercício modulava a dor localmente (na região do músculo exercitado) e também em outras regiões do corpo. A pesquisa treinou a coxa direita teve um aumento no limiar de percepção de da coxa esquerda;
  • Para doenças que apresentam dores crônicas como atrite e fibromialgia podemos ver uma aplicação muito interessante do treinamento que pode afetar diretamente a dor e a qualidade de vida da pessoa acometida pela doença;
  • Ainda existem profissionais e amadores que monitoram seus treinos com base na dor muscular tardia. Já comentamos isso em uma postagem anterior (clique aqui para ler a postagem), mas vale a pena reforçar que o treinamento baseado na DMIT é altamente passível de erro. Lembrando, o exercício tem um efeito hipoalgésico agudo e crônico, assim modulando a dor conforme o treino e a experiência do praticante. Cuidado com expressões como no pain no gain, pois existem boas evidências que vão na direção contrária dessa afirmação.

Prescrição de treinamento nunca vai ser uma tarefa fácil e simplesmente baseada em uma variável. É um conjunto de fatores que devem ser estudados, considerados e avaliados. Esse artigo é interessante pois nos faz refletir sobre alguns aspectos relacionados ao treinamento e a sua prescrição.

Tem alguma opinião que não foi comentada no texto? Deixe seu comentário aqui e vamos engrossar esse caldo!

Referencia

BLACK, Christopher D. et al. Local and Generalized Endogenous Pain Modulation in Healthy Men: Effects of Exercise and Exercise-Induced Muscle Damage. Pain Medicine, p. pnw077, 2016.

Câncer e exercício: Conhece os benefícios?

Por Yuri Motoyama

Atualmente vemos que os casos de pessoas acometidas com algum tipo de câncer vem crescendo. Me lembro que durante minha infância ouvia casos que aconteciam com um “conhecido de um amigo distante”. Essa proximidade foi aumentando até que isso aconteceu na minha família. Só quem passou por isso, teve um parente próximo ou um amigo com câncer sabe como é complicado o tratamento dessa doença.

Eu já havia lido sobre os benefícios da atividade física orientada para pacientes em tratamento de câncer, mas a minha ficha realmente caiu quando eu tive que trabalhar diretamente com um caso na academia. Isso fez com que durante um período eu li muito sobre atividade física e câncer.

Antes de ir para a parte técnica do texto tenho algumas considerações a respeito desse tema para compartilhar com vocês professores:

  • Estudem! Ao ver os benefícios que a atividade física pode promover para pacientes com câncer, vocês verão a ferramenta poderosa  que temos em mãos para melhorar e MUITO a qualidade de vida de um paciente.
  • Muitos pacientes acabam passando pela dificuldade do tratamento o tempo todo em casa, pois não tem informação suficiente e não sabem onde encontrar um profissional de confiança para auxiliá-los em uma academia(e isso é 100% nossa culpa educadores físicos!).
  • Acredito plenamente que muito do combate a essa doença é feita mentalmente (mente X câncer), então NUNCA trate um aluno/paciente como um coitado. A situação é exatamente a inversa, o paciente vai ter que ter a mente de um guerreiro para superar todo o tratamento. Então, se chegar um aluno nas suas mãos e pedir sua ajuda para complementar seu tratamento lembre-se: você não está falando com um coitado e sim com um gladiador!

A fase do tratamento do câncer (quimioterapia ou radioterapia) acaba trazendo como consequência efeitos contrários aos efeitos do treinamento. A radiação pode causar fibrose nos pulmões reduzindo a capacidade pulmonar; a quimioterapia leva a um quadro de anemia afetando o transporte de oxigênio, quadro que reduz o débito cardíaco e a quantidade de massa magra.  Os pacientes também apresentam uma fadiga maior para realizar suas atividades diárias.

A atividade física regular (uma caminhada leve por 30 minutos ou mais na maioria dos dias da semana) já apresenta benefícios associados a uma cadeia de eventos desde o sistema nervoso até a contração muscular.  Vou resumir no texto alguns benefícios que podem ajudar muito a fase de tratamento de um câncer.

Imunidade

O mecanismo exato do efeito do exercício sobre a imunidade ainda é desconhecido e necessita de mais estudos. Atualmente a literatura sugere que o exercício tem uma função anti-inflamatória e se praticada a longo prazo, pode proteger o paciente de inflamações crônicas associadas a doença.

Composição corporal

Em alguns casos, pacientes de câncer apresentam obesidade e na grande maioria perda de massa magra. Para pacientes com câncer de mama, uma revisão mostrou que o treinamento aeróbio promove um redução de gordura e o treinamento de força (musculação) a manutenção da massa magra.

Capacidade aeróbia

Apesar de existirem poucos casos de treinamento aeróbio de alta intensidade, alguns dados mostram que esse tipo de treinamento pode preservar a capacidade aeróbia, mesmo concorrendo com os déficits causados pelo efeito da quimioterapia. Pacientes com câncer de origem hematológica (COH) e câncer de mama se beneficiam muito do treinamento aeróbio de intensidade moderada e baixa com uma frequência mínima de 3 dias por semana. Os dados mostram que por aspectos relacionados a segurança, os ergômetros (esteiras e bicicletas) apresentam bons resultados psicológicos e fisiológicos.

Pacientes com COH mostraram aumentos significantes na taxa de hemoglobina com o treinamento aeróbio. Fato que tem relação com as melhoras na aptidão física e qualidade de vida apresentadas na literatura.

Um estudo específico citado em uma revisão que avaliou somente exercício e pacientes com COH, mostra que deve-se investigar um possível limiar de hemoglobinas e plaquetas para permitir que os pacientes participem de um programa de atividades físicas. Porém, mais investigações são necessárias para estimar esse limiar e possivelmente limiares para diferentes intensidades de exercício aeróbio sem colocar o paciente em risco de infecções.

Força Muscular

Aluns estudos mostram incrementos de 30% a 50% na força em pacientes que praticam musculação durante o tratamento do câncer. O treinamento de força é uma das alternativas mais seguras, porém na maior parte dos trabalhos a musculação é associada a um treinamento aeróbio. Isso dificulta a avaliação dos benefícios somente do treinamento de força.

Aspectos psicológicos

Em pacientes acometidos com câncer de mama, o exercício está associado a uma manutenção positiva da auto-estima.  Outros fatores como ansiedade e depressão também tem seus scores reduzidos.

Conclusão

Muitas revisões que se preocupam em reunir dados desse tema encontram limitações metodológicas nos trabalhos como falta de randomização e delineamentos não controlados. Outro ponto carente na literatura são as atividades de alta intensidade que em alguns casos apresentam respostas positivas porém são pouquíssimo estudadas. Porém, podemos pensar em vários aspectos positivos levantados nesses trabalhos que colocam a atividade física como um grande “auxiliador” do processo que envolve o tratamento do câncer.

Quem acompanha ou já acompanhou algum paciente sabe que existem alguns períodos que sucedem a quimioterapia onde o corpo fica bem fragilizado, porém fora esses períodos o paciente pode treinar com intensidades mais altas se o treinamento for bem prescrito.

Conheça seu aluno, estude, estude e ESTUDE!

E saiba que você nunca está sozinho nessa, procure ajuda, converse, discuta pois só assim temos como melhorar.

Nossa profissão ainda precisa conquistar um espaço mais que merecido…


Referências

COURNEYA, Kerry S. et al. Effects of aerobic and resistance exercise in breast cancer patients receiving adjuvant chemotherapy: a multicenter randomized controlled trial. Journal of Clinical Oncology, v. 25, n. 28, p. 4396-4404, 2007.

KRUIJSEN-JAARSMA, Mirjam et al. Effects of exercise on immune function in patients with cancer: a systematic review. Exerc Immunol Rev, v. 19, p. 120-43, 2013.

WOLIN, Kathleen Y. et al. Exercise in adult and pediatric hematological cancer survivors: an intervention review. Leukemia, v. 24, n. 6, p. 1113-1120, 2010.