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Qual variável contribui para um melhor VO2max: Débito cardíaco ou diferença arteriovenosa?

Por Prof. Ms. Paulo Eduardo (Dudu)

O consumo máximo de oxigênio (VO2máx) é uma variável constantemente utilizada para avaliar o condicionamento cardiorrespiratório. É sabido que o treinamento de endurance promove uma série adaptações sistêmicas e metabólicas, contribuindo com a melhora do VO2máx.

A equação de Fick diz que o VO2máx é igual ao débito cardíaco (DCmáx) pela diferença arteriovenosa de O2 (Dif a-vO2) (VO2máx = DCmáx x Dif a-vO2), onde o DCmáx é igual ao volume sistólico pela frequência cardíaca (DCmáx = VS X FC) e Dif a-vO2 é a diferença entre a concentração de O2 arterial e venoso. A partir disso, alguns estudos têm investigado, quais das duas variáveis (DCmáx ou Difa-vO2) são mais suscetíveis às adaptações promovidas pelo treinamento de endurance. Contudo estes estudos apresentam resultados inconsistentes devido a algumas limitações metodológicas, como: tamanho da amostra e falta de padronização na intensidade e volume de treinamento. Isso motivou Monteiro  et al. (2015), a realizarem uma revisão sistemática com metanálise com o objetivo de identificar os efeitos do treinamento de endurance no VO2máx, DCmáx e Dif a-vO2 bem como determinar as associações entre VO2máx, DCmáx e Dif a-vO2.

Métodos       

Aqui descreverei um breve resumo da metodologia adotada pelos autores (para mais detalhes sugiro a leitura do artigo na íntegra):

  • A busca sistemática incluiu MEDLINE, Scopus e Web of Scienc.
  • Período considerado: todas as publicações até Setembro de 2014.
  • Assuntos pesquisados: healthy young, training, effect, adaptation, VO2max, maximal, peak, oxygen e aerobic.
  • Utilizou-se da Lei de Fick para calcular a Dif a-vO2 nas publicações que informaram apenas o VO2máx e o DCmáx.

Para seleção dos artigos, foram inclusas publicações que:

  • Avaliaram VO2máx, DCmáx e/ou Dif a-vO2 em exercício máximo  no ciclismo ou corrida.
  • Antes e após ≥ 3 semanas de treinamento.
  • Em jovens adultos (idade média <40 anos).

Foram excluídas publicações que:

  • O treinamento teve duração <3 semanas.

Resultados e Discussão

Foram inclusos 9 publicações, contudo 2 publicações apresentavam resultados com grupos separados, desta forma cada resultado foi considerado como 1 estudo individual, resultando em 13 estudos, compreendendo 130 indivíduos jovens saudáveis, com idade variando de 22 a 28 anos.

Os programas de treinamento consistiram de treinamento continuo e/ou intervalado, em intensidades variáveis, realizados em cicloergometro e/ou esteira, com duração de 1,17 a 4,41 horas/semana em período de 5 a 12,9 semanas.

A metanálise revelou aumento significativo no VO2máx e DCmáx após o treinamento de endurance. Não verificou-se aumento significativo na Dif a-vO2.

Verificou-se associação positiva entre  VO2máx e o DCmáx. Em contraste não foi observada associação positiva entre VO2máx e a Dif a-vO2.

 vo2max

O principal resultado é que o DCmáx, mas não a Dif a-vO2, no exercício máximo, é aumentado e linearmente associado com o aumento do VO2máx em consequência do treinamento de endurance. Como o VO2máx é determinado principalmente pela capacidade do sistema cardiovascular fornecer oxigênio para os grupos musculares em atividade durante o exercício, é evidente que o DCmáx (distribuição do fluxo sanguíneo e capacidade de transportar oxigênio) deve ser incrementando pelo treinamento de endurance afim de aumentar o VO2máx.

Quanto aos mecanismos responsáveis pelo incremento no DCmáx, o principal fator, recentemente proposto, é o aumento no volume de sangue (hipervolemia), bem como,  a diminuição da resistência vascular periférica, aumento da capilarização, aumento da dilatação do endotélio vascular e/ou músculo liso, cooperando com o aumento da condutância vascular e retorno venoso, adaptações periféricas que contribuem com o aumento do DCmáx após o treinamento de endurance crônico.

 Conclusão

O efeito treinamento de endurance (5 a 13 semanas) no VO2max está linearmente relacionado com um aumento no DCmáx, mas não com a Dif a-vO2.         

 


Referencias

MONTERO, D.; DIAZ-CAÑESTRO, C.; LUNDBY, C. Endurance Training and VO2max: Role of Maximal Cardiac Output and Oxygen Extraction. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. Publish Ahead of Print, 9000. ISSN 0195-9131.

Existe uma intensidade ideal para a queima de gordura?

Por Yuri Motoyama

Aqui vai um tema muito polêmico e controverso. Ano passado tivemos a moda do HIIT como a salvação para queima de gordura, depois passamos pela polêmica que exercícios aeróbios engordavam e agora o pessoal está indeciso (rs)! O carnaval está aí e você está com o “corpo dos sonhos” (expressão de um amigo meu para se referir a mulher que tem a cintura igual a um sonho de padaria quando vaza o recheio para os lados).

O processo para queima de gordura depende de vários fatores como: genética, cultura, nível de atividade física, alimentação, tipo de atividade física, etc. Porém, nessa história toda um dos pontos que sempre me chamou a atenção foi com relação a intensidade. É melhor reduzir o tempo de treinamento e realizar séries com alta intensidade ou manter um ritmo constante e aumentar o tempo do treinamento?

Como poderíamos estabelecer intensidades de treinamento para queima de gordura?

Antes de comentar o artigo referente a esse post eu gostaria de relembrá-los que o estabelecimento de intensidades para o trabalho aeróbio não é uma tarefa tão simples e depende de equipamentos caros ou de profissionais qualificados em determinadas avaliações.

Clique aqui e leia um post sobre a determinação dos limiares de treinamento!

Em uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Católica no Chile, foi analisado o efeito de diferentes intensidades de treinamento na taxa de oxidação de gordura. Para isso, participaram do estudo 97 homens divididos em 4 grupos:

  1. Controle.
  2. 5 a 6 km de treinamento com intensidade constante associada a velocidade do 1° limiar.
  3. 5 a 6 séries de 1000m na velocidade do 2°  limiar.
  4. 10 a 12 séries na velocidade máxima.

Todos realizaram 24 semanas de treinamento e as intensidades associadas aos limiares foram obtidas através de um teste incremental de 1km/h a cada minuto até a exaustão.

Qual intensidade obteve uma resposta maior com relação a queima de gordura?

De todos os resultados, alguns me chamaram a atenção e de alguma forma são bem contraditórios com o que é divulgado pela mídia. Um ponto interessante foi que o treinamento realizado no primeiro limiar (L1) apresentou aumento no valor do VO2max relativo e um consumo de oxigênio maior no L1.

O treinamento intervalado realizado no segundo limiar não apresentou nenhuma diferença nas variáveis respiratórias. E o treinamento realizado na intensidade máxima (velocidade associada ao VO2max) apresentou um consumo de oxigênio maior na intensidade associada ao segundo limiar (L2).

Com relação a queima de gordura (oxidação máxima de gordura) todos os treinamentos apresentaram uma efeito positivo aumentando a quantidade de gordura utilizada. Comparando todos as condições experimentais com o grupo controle, o grupo que realizou o treinamento no L1 foi o que apresentou maiores taxas de redução de gordura corporal.

Está solucionado o problema com relação a queima de gordura?

Não, muito pelo contrário! isso é somente mais um pedacinho de palha na grande fogueira da curiosidade científica. Lendo o trabalho, que está em espanhol e é um idioma que não estou muito acostumado, vejo alguns pontos que questionaria o autor. Por exemplo, já li em artigos que para se determinar os limiares em protocolos incrementais, é recomendado a utilização de estágios com 3 minutos para que exista uma estabilidade metabólica e que a mesma seja representativa. Eles utilizaram estágios de 1 minuto, que em alguns casos poderia superestimar o valor real dos limiares. Outro ponto foi na descrição da técnica de calorimetria indireta, no texto não ficou claro o tempo que os voluntários permaneceram conectados ao analisador de gases.

Enfim, fica aqui mais um artigo para discussão e interpretação de outros profissionais. Participe da discussão aqui na seção de comentários do site e escreva sua opinião sobre o tema!

Ficou curioso sobre o tema de determinação dos limiares? Então clique aqui e ouça esse programa onde discutimos uma nova técnica de identificação desses limiares de forma prática e barata!


Referência

ULLOA, David et al. Estudio comparado de la intensidad de entrenamiento sobre la máxima tasa de oxidación de grasas. Nutrición Hospitalaria, v. 31, n. n01, p. 421-429, 2014.

Clique na referência para acessar o artigo completo!